Ao soldado desconhecido

Ideologia mata. A primeira vez que ouvi isso foi no curso de História, da PUC-Campinas. Eu já estudava os movimentos que culminaram no que chamamos de Revolução de 1932. Fiquei em choque. Fechei a cara. Nem lembro sobre a explanação do professor sobre essa afirmação. Mas ela ficou martelando na minha cabeça.
Estima-se que mais de 100.000  civis se alistaram para defender o modo de vida paulista. Eu conheci 1 deles, na mesma época que escutei essa frase do professor ideológico do liberalismo.
De repente estávamos eu, Carlos, Eric e Gisele indo para Ribeirão Preto. Recém completos 100 anos de idade, José Mango, mecânico do interior paulista, aceitou nos receber para contar um pouco de vivência como soldado voluntário na Revolução de 1932, quando contava 19 anos de idade.
O ex-combatente constitucionalista Mango não nos deixou sem antes receber seu título de cidadão itapirense, havendo ele participado da resistência no Morro do Gravi.
Conhecer e escutar a história de José Mango, um soldado conhecido e reconhecido, em meu coração foi como conhecer centenas de jovens querendo mudar o mundo. Jovens que viram Vargas desfilar com seu batalhão para o Rio de Janeiro, capital da Velha República do Brasil. Cavalos amarrados tranquilamente no obelisco, em 1930. 1932 era para ser só mais uma etapa do amadurecimento da Democracia Brasileira. Vargas nunca gostou muito da democracia.  Ideologia mata.
Toda vez que penso em Mango eu lembro da feição dele quando me respondeu a pergunta sobre Vargas: – Ele não poderia ter permitido uma guerra.
O mausoléu do Gravi logo tiveram os corpos exumados e transferidos em procissão religiosa, sob orações de toda Itapira, até o cemitério da Saudade. E em 25 de janeiro de 1934 é inaugurado o primeiro monumento ao Soldado Desconhecido de São Paulo. Assim como também é oficializado o mausoléu no cemitério da Saudade, com busco alusivo ao Soldado Desconhecido, observando o horizonte de Itapira em sua eterna guarda, em honra a todos que tombaram pela democracia cujo nomes e histórias desconhecemos. O Soldado Desconhecido.
É pra existir gravações da conversa com José mango em ‎2‎ de ‎fevereiro‎ de ‎2013. Em minhas memórias o guardo de olhar firme e sereno. Sobrevivente da guerra civil de 1932, se dizia cansado da vida, mas disposto a responder e explicar detalhadamente sobre nossas questões de falar sobre sua passagem com soldado em Itapira.
Diante da realidade de seu futuro traçado, as utópicas trombetas da guerra lhe chamaram atenção. Já na plataforma de embarque do trem para a capital, se despede do irmão em uma última tentativa de comove-lo, a pedido da mãe, para esquecer da guerra. Tudo muito rápido.
Na capital o jovem recém alistado apresenta problemas de saúde e permanece tempos na enfermaria, juntos de muitos outros voluntários. Recebida alta, pega trem para o fronte de batalha no Gravi. Mango relata que acredita que o fuzil que deram a ele, no desembarque, poderia facilmente ser de outro voluntário recém caído em batalha.
BOMBA! falhou… Deserção… Farda enterrada… Estrada.. Roupas no varal… ir para capital, se alistar novamente. Cessar fogo.
Uma professora que residia próximo a estação de trem de Itapira, relata que mesmo depois de 80 anos, ela ainda sonhava com gemidos oriundos dos vagões deixando sangre sobre os trilhos. O barulho do aço contra aço é incapaz de abafar choro e gemido de dor e agonia das centenas de feridos em batalhas. Na maca de socorro a farda é de um vermelho comum a todos os homens, sejam os que acreditam na manutenção ou os que crêem na  mudança. Ideologia mata. Mango, pelo visto tinha muita bravura. Pouco idealismo. Eu tenho pouca bravura, mas muito idealismo. Por isso não desejo me alistar em nenhuma revolução.
Em 14 de julho os Franceses comemoram a Revolução Francesa. A elite paulista dizia querer o mesmo no Brasil, os esforços foram para que a guerra contra o regime autoritário de vargas se deflagrasse exatamente em 14 de Julho de 1932. Porém ocorridos nas manifestações de 23 de maio, fizeram as coisas se adiantarem. São Paulo declarou-se independente do resto do Brasil, assim a República de São Paulo existiu oficialmente de 9 de julho a 2 de outubro de 1932. Relatos contam que soldados batiam nas casas perguntando as pessoas se consideravam-se brasileiras ou paulistas. O que gerou o exagerado sentimento separatista. No entanto tudo isso apenas serviu para que a nobreza paulista entendesse que não se vive separado do Brasil. A tão desejosa nacionalidade varguista foi assim alcançada.
Em memória dos homens e mulheres que caíram na luta pela liberdade. Em especial os jovens paulistas de 1932 que tiveram menos sorte que José Mango.

JM 13-7-19

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