Itapira 200

Oficialmente, em 24/10/2020 Itapira completará 200 anos de sua fundação.
Soube aproveitar algumas oportunidades de aprofundar estudos históricos dirigidos na História de Itapira. Para a conclusão do curso de licenciatura estudei com mais ímpeto a relação entre as micro histórias com as superestruturas sociais. Sempre atento às consequências, divergências, confluências e influências. Sem deixar de lado as curiosidades.
Desde que conheci o termo, aos 20 anos de idade, me considero um estudioso das mentalidades. Logo o ensino e aplicação da História, assim como sua importância social e emocional se tornaram minha principal linha de raciocínio historiográfico. nesta confluência de fatores que nasceu o trabalho: O local como premissa: uma análise do ensino de História pela visão da história local; Cuja apresentação foi um intenso debate por quase 2 horas. A discussão se deu sobre a utilização das narrativas puramente orais, sem qualquer comprovação arqueológica, como fonte histórica. Minha posição parte do entendimento do conceito de memória coletiva. Linha do pensamento historiográfico interdisciplinar com a psicologia, cujo exponencial global é a psicóloga brasileira Ecléa Bosi. Neste trabalho li quase toda produção da professora da USP, além de entrevistas, mas utilizei como base principal apenas o livro: memória e sociedade: lembranças de velhos; É o trabalho que mais aborda a questão da memória individual em sua relação com a memória coletiva e como isso influencia e cria as narrativas orais coletivizadas.
O pilar para a prática historicizante foram os resultados dos estudos de um dos meus professores junto de aluno em iniciação científica, João Miguel e Gabriel Baroni: História fabricada: controvérsias em torno da fundação da cidade de Campinas; sendo também consultados pesquisas sobre outras cidades do interior de São Paulo.
Discutida e aprovada minha forma de pensar as relações entre as memórias e como elas formam, com apoio arqueológico, a História. Era preciso colocar a teorização em prática. Então o segundo trabalho, o trabalho para obtenção do grau de bacharel foi um profundo estudo de caso: Jácomo Mandatto e a História de Itapira: uma reflexão entre memória e história. Sempre lembrando que somos uma sociedade sem uma História escrita pela e para a academia de Historiadores, Sociólogos, entre outros profissionais das Ciências Sociais. Compreendi então os motivos que levaram Lilian Schwarcz iniciar sua apresentação da obra apologia da História (BLOCH, 2001) com um ditado creditado aos árabes: “os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais”. Em tal trabalho busquei mostrar como Mandatto entende e apresenta a interação entre ocorridos em Itapira, em São Paulo e no Brasil aos longo dos últimos 200 anos. O trabalho em questão, foi aprovado, porém dado como inconcluso. O que prova a tese geral: sem a vivência da memória coletiva oral, sem real compreensão da proximidade da narrativa do escritor com os inúmeros causos e contos orais de sua localidade, se utilizando das fontes arqueológicas como base para provar a veracidade do que se conta por aí, o trabalho acadêmico parece não ter um fim em si mesmo. Pois significado está na memória. A História organiza todo o conhecimento, apenas.
Em ambos foram efetuados levantes das produções sobre História de Itapira de diversos memorialistas e suas formas de contar nossa história ao longo destes 2 séculos de cultura europeia. Dentro da concepção de história local, destacando os lugares de memória que coexistem nas três dimensões: material, simbólica e funcional. Considerando ainda o resultados dos estudos do doutor em Ciências Sociais, professor Ediano Dionísio do Prado: “Vila Ilze”: o viver fragmentado do “boiá-fria”: um estudo sobre o cotidiano dos trabalhadores volantes de Itapira; formam as bases fundamentais de todo meu conhecimento sobre a História de Itapira.
Nenhum estudo histórico possuí uma conclusão em si mesmo, embora ocorram muitos esforços para se mostrar o inverso. A conclusão é o leitor que dá, considerando as questões que lhe afligem. Nós, Historiadores, apenas traduzimos acontecidos passados para as formas contemporâneas, facilitando o entendimento sobre rupturas e continuidades ao longo da existência do homo sapiens e da Terra. Buscamos nas palavras em uso hoje, expressar lógicas de ontem, na esperança do entendimento sobre conflitos hoje e quiçá auxiliar num melhor planejamento do amanhã e na resolução de conflitos sociais. A utopia que vislumbro não se trata de uma sociedades sem conflitos, Minha utopia é um pouco mais real. Os conflitos são resolvidos de forma civilizada, havendo compensações e colaboração coletiva. Pois tudo, de uma forma ou outra, menos ou mais diretamente, está interligado. Somos seres sociais por necessidade, é preciso entender isso de uma vez por todas. Não adianta se isolar. Pior ainda é tentar censurar o outro, ou tentar subjugá-lo dentro de um padrão, não iremos ter progresso nesse caminho.
O conforto individual e coletivo são frutos do progresso. O progresso só vem do autoconhecimento individual aliada a empatia com o outro. Estes, por sua vez, são frutos do conhecimento aliado da liberdade de expressão. O resultado é a sabedoria, ingrediente vital para qualquer sociedade que deseja se chamar democrática. O conhecimento sobre os últimos 200 anos é bastante profundo, com diversidade de autores e temas. Essa produção está longe de seu fim, eu mesmo pretendo ainda escrever muitas coisas sobre. Porém o momento pede ênfase nos conhecimentos que estão a beira da total e completa extinção.
É fato que, os europeus são responsáveis diretos pelo fim de culturas inteiras ao redor do globo terrestres, sem entrar no mérito do proposital ou acidental. Em suas explorações marítimas encontraram a tão desejosa Terra Brasilis, dos mitos nórdicos, mas não se preocuparam em preservar o que fazia dessas terras o verdadeiro paraíso atlântico. Em seus individualismos, os povos europeus dizimaram civilizações paleoameríndios, cujo crime foi recebê-los como potenciais parceiros comerciais. Onde hoje chamamos de México, palácios e templos piramidais, que levaram séculos para serem finalizados, com toneladas de pedra perfeitamente encaixadas e adornadas ricamente de cores e relevos esculpidos por mãos humanas, sumiram completamente em poucos anos de investida espanhola. Machu Picchu restou pois era uma cidade de veraneio, não estava em período de uso durante as primeiras investidas espanholas. E foi assim que os antigos deuses das Américas esconderam por 411 anos sua existência dos europeus. Servindo a nós, hoje, de prova arqueológica da existência de ao menos uma organização social muito mais avançada que a dos saqueadores espanhóis.
Os nativos que sobreviveram às primeiras investidas portuguesas e espanholas devem isso ao seu valor de mercado como escravo, pois aos cristãos, em primeira instância, as pessoas que aqui habitavam nem alma possuíam e sua forma de arte e de vida foi dada como selvageria, caracterizando culto ao profano. E assim todas as Américas conheceram a fome e o frio europeu. Ainda hoje os remanescentes culturais desses povos nativos têm sua humanidade desprezada. Muitos preferem acreditar em qualquer devaneio sobre alienígenas construtores, do que aceitar que foram mentes e mãos nativas que construíram cidades como Machu Picchu. Desconsideramos que a alimentação típica europeia é sopa (com bastante água e pouco legume) e pão (trigo). Mandioca, pimenta, cacau, amendoim, erva mate, palmito, mamão, abacaxi, abóbora, batata doce, baunilha e inhame são alimentos que os europeus somente tiveram acesso depois de conhecer os Tupis. Milho, tomate,  mirtilo (blueberry), cranberries, morango, abóbora, girassol, abacate e leguminosas são alimentos oriundos das Américas central e do norte. A total variedade da alimentação de origem Tupi ainda é desconhecida, vira e mexe re-descobrimos algum sabor brasileiro.
Esse é a introdução de uma série de ensaios sobre o modo de vida dos povos Tupis, assim como os primeiros contatos com os povos europeus, processo fundamental da formação da cultura caipira do interior paulista.

JM 18-7-19 – T.I. 21-7-19

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