Nasce um mito-história: Tião Mulato

Nascido em meio ao rubro encorpado na calada da noite. Mulato teve o primeiro choro abafado pela chuvarada. Mãe e filho nasceram no mesmo lugar, debaixo do quarto dos senhores, no porão. Mas na noite que ela conheceu o mundo o silêncio reinava impiedosamente. Seu primeiro choro foi de susto, devido a rigidez  gélida dos ferros. O segundo choro, na mesma noite, foi logo depois que o chicote silenciou, para sempre, sua mãe. Assim, para ela, sem os ferros, o primeiro choro do filho Mulato era anúncio de um novo reino, e a chuva forte: benção da Mãe do Entardecer e das Tempestades.
Botem reparo. A mãe de Tião nenhum conhecimento detinha sobre sua própria mãe. Sabia que também era doméstica dos senhores. Aprendeu desde menina a ouvir e responder na estranha língua dos brancos, os derrotados no norte. O filho, Tião, nunca soube de pai, também nunca soube que a mãe fora açoitada, em pagamento por algumas das traquinagens do menino Mulato. Ninguém nunca falava sobre isso. Pouco se fala sobre as tristezas, senti-las já é o suficiente. Como agravante, a mãe sentia em seu coração a necessidade de esconder as crueldades humanas da inocente criança. A manutenção de mãe e filho como criadagem doméstica, era garantido pelo esquecimento das ocorrências dentro da propriedade e em especial dentro da casa grande. Os olhares sobre as curvas da mãe constituem outro fator que contribui para alguma certeza sobre estabilidade da pequena família. E, segundo os senhores, é mais fácil aturar a malcriadez do menino Mulato que ensinar outra preta. Nesse jogo de lembranças, os troncos e correntes ainda se faziam presentes, com a senzala passando por limpeza e reparos, para preservação da história. Já o complexo de benfeitorias, com o terreiro de chão batido ao centro, onde o povo Bantu habitava, deu lugar ao grande curral para a lida com o recém chegado gado de corte. Os pés de cafés foram dando lugar às pastagens. A capela dos antigos senhores, um outro tipo de branco ao que indica, ainda estava lá, entre a casa grande e a senzala, trancada.
Tião era carismático, somente os senhores lhe chamavam Mulato. Mesmo assim não era Bantu suficiente para entrar nas rodas de jongo. Isso costumava aborrecê-lo, mas agora já não importa, as rodas de jongo se acabaram. A tristeza foi suprimida pela novidade das rodas de viola da peãozada. Tião gostava do tom de vermelho dos tijolos, centenários, onde sempre fora escuro pelo secar do café. Cotidianamente os empregados se reuniam para escutar as ordens passadas pelos capitães do ma… digo, pelos Capatazes de Fazenda. A cor do piso do grande terreiro parecia perfeita para refletir adequadamente as luzes emitidas pela fogueira na noite.
O exato fim do povo Bantu, Tião nunca soube direito, era muito pra sabe e poca idade pra entende. Além disso havia muito trabalho com a construção do novo curral, amizades a se fazer com a peãozada e nas rodas de viola ele já conseguia entender quase tudo. Quando lhes chamavam de Mulato, o tom era amistoso, e por isso parou de se incomodar, assumindo de vez como seu próprio nome.
Das poucas preocupações que a mãe demonstrava, ele apenas compreendia o agradecimento a Iansã, sua protetora. A velha, antes de ir embora, sempre dizia – Tião é fio das chuva e dos ventu, depois que vei ao mundo, chuva nunca mais farto. – O que era verdade e colaborou para fazer de Tião Mulato um sujeito esguio, forte e alegre. Aos 12 anos de idade, os senhores já começaram a cobrar produção – Não alimentemos vagabundos – Rosnava o senhor mais velho e em sua estranha língua, com seu chapéu de abas largas, mas quebrado diferente dos paulistas.
Ninguém jamais haverá de sabe descreve a dor que uma mãe sente ao se despedir do menino com cara de homem. Montado em um pesado madrinheiro rosilho, liderando uma junta de burros de carga, o aspirante a boiadeiro se sentia errante.  Mostrando não reparar nas lágrimas da Mãe, se afastou para se juntar à comitiva de apoio. Era preciso alguma pressa, o gado já estava ficando inquieto no curral, e a comitiva de apoio precisa preparar o caminho para a boiada pesada. Na volta, trariam desmamados, comprados dos pequenos criadores pelo caminho. Era serviço pra mais de mês.
Na viagem Tião ficou ainda mais próximo do peão Charrua, um sujeito vermelho, de penetrantes olhos pretos absolutos, cabelos igualmente negros, muito lisos e longos. Charrua era o cozinheiro da comitiva e sempre foi muito preocupado com as montarias de todos. Mais Portuga e Casmurro, peões muito experientes em reclamar de pelegos finos e dores, formam assim a grande comitiva do Tião Mulato.
Na primeira semana de viagem, o jovem boiadeiro errante já era capaz de escolher o local de parada sozinho, quando longe de pousos e fazendas. Assim quando Charrua, Portuga e Casmurro alcançavam Mulato, o café já estava quente e o processo de montagem da cozinha já iniciará, com o jovem aprendiz correndo pelas kangas dos burros. Depois de toda peãozada comer, Mulato tinha de se apressar para sair antes de todos novamente, em busca do pouso noturno, uma tarefa mais delicada. Na segunda semana aprenderá que Charrua era um apelido, seu nome era  Zapicán. Ele vinha do Sul, e trouxe consigo uns cavalos crioulos da terra, mais fortes e mais resistentes, e mais emocionados. Os senhores não gostaram, mas a peãozada exigia ferramentas adequadas. Portuga era José e Casmurro, Alexandre. Cada nome. Tião Mulato é muito mais bonito. E na terceira semana Tião pediu para deixar o calor das panelas, gostaria de se dedicar a delicadeza das cordas da viola, sem o duro e pesado passo do forte rosilho.
Na parada da ceia, antes de dormirem, Tião, em comemoração pelas primeiras notas arrancadas, duramente, da viola, entendeu o motivo do nome aguardente. Semanas mais tarde, com um ensopado de porco e feijão para comemorar junto da mãe, Tião Mulato tocou e cantou sua primeira canção sertaneja. A mãe com zoio cheid’água, abraçou o filho após escutar – Charrua diz que quando toco e canto, até as estrelas dançam.
Tião Mulato alto, forte, carismático e companheiro, possuía uma voz grave como um trovão atingindo o peito dos ouvintes. As batidas repicadas na viola de cabaça, eram um abuso da boa vontade das cortas de crina improvisada, o som que o instrumento vazia quase que substituí a saudades dos atabaques e tambores das rodas de jongo. Tudo isso junto era uma experiência única. Não há quem não reconheça um Leão Africano, quando dá um grito na mata. Mãe e filho sabiam disso, e o jantar foi festejo de agradecimentos pelas graças de Iansã. Antes da ceia na casa grande, ela pediu licença aos senhores, Tião virou homem feito, queria agradecer. Os americanos  abaixaram a cabeça em alguns instantes de silêncio. Depois comentaram entre si o perfeito inglês da petra. Voltando rapidamente aos assuntos corriqueiros de negócios. Ela saiu da mesma forma silenciosa de frente, para voltar apressada com mais bebida.
Depois do jantar todos desceram, os senhores deixaram matar um boi, para fazer ao modo do Charrua, na fogueira de chão. A festa, segundo a peãozada, era em louvor a Santa Bárbara. E quanto Tião entrou na roda pra cantar e tocar, até os americanos largaram a carne ao molho de tomate do Charrua, para bater os pés, a sua própria moda, lembrando muito uma moda catira.
Mulato se sentiu um Rei, e ninguém jamais há de negar sua realeza.

JM 31-7-19 – T.I. 4-8-19

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s