Arandu porã

É conhecido que ainda resistem ao menos 10 povos nativos no Brasil, totalizando mais de 181.400 indígenas. Estima-se que quando os europeus por aqui chegaram eram mais de 15 milhões de indivíduos, espalhados pelas florestas Amazônica e Atlântica (incluindo as partes que se encontram atualmente sob domínio de outros países). E sabemos que habitam este continente há pelo menos 20.000 anos.
Não sabemos como chegaram, nem quando. Sabemos que cada agrupamento humano criou seu próprio modo de vida, seu modo de sobreviver na mata fechada, quente e úmida, que compõem grande parte da vegetação e clima de nosso território nacional. Para Eduardo Neves, um dos maiores especialistas em arqueologia na Amazônia, os povos nativos desenvolveram outras formas de agricultura e pecuária, um processo muito mais orgânico e integrado que o praticado pelos povos primitivos europeus. O resultado foi o cultivo, seleção e domesticação de quase todas os vegetais e animais das florestas Amazônicas e Atlânticas. Assim sua tese revela que pirâmides e Estado são anomalias sociais oriundas de sociedades que enfrentam a escassez de alimentos. Os Tupi não tiverem necessidade de se organizar em Estado ou de construir fortificações, pois bastava esticar o braço para apanhar uma fruta. Neves está se preparando para lecionar em Harvard, EUA.
Pessoalmente penso que, quem não entende a necessidade do equilíbrio ecológico e cai no conto da monocultural, jamais poderia se chamar produtor rural, pois, de fato é um explorador. Produtores Rurais cultivam a Terra, zelando pela equilíbrio ecológico e passando sabedoria na forma oral. Não se enganem é preciso muita sabedoria, mas muita mesmo, para cultivar algo, mesmo em terras em que tudo que se planta dá. Entendam, indígenas não são “inocentes, menos ainda são “pobres coitados protetores da natureza”. Não preservam as matas por gosto, ou por serem “bonzinhos”. É necessidade! É produzir alimentos da forma mais racional possível, constante de forma que o próprio ambiente seja capaz de se desenvolver com mínima interferência quimica ou fisica. É garantir a manutenção da vida humana na Terra! A questão sempre foi: Como passar tanto conhecimento para o máximo de pessoas de forma que todas detenham capacidade similar, ao ponto de motivar um processo de autogestão, na tarefa cotidiana de cuidar das maiores florestas do mundo, gerando alimentos, medicamentos e entretenimento por gerações, com o menor esforço possível? A resposta nunca esteve no capital. O Capital explica os erros, não aponta para a resolução deles. Os Tupi, cuja grande maioria são organizações sociais teocráticas e hereditárias, não desenvolveram outros sistema que não alinhado ao religioso. Mesmo o comércio é subordinado ao calendário e preceitos religiosos. Chamamos, erroneamente, a religião Tupi de “superstição”, quando na realidade é equilíbrio ecológico produzindo alimentos para todos de forma automatizada. As “superstições” são manual de ação e manutenção do pleno funcionamento desse delicado equilíbrio.
Percebam que, a caçada é tradição para alguns povos Europeus, sendo um verdadeiro ritual de passagem da nobreza inglesa, por exemplo. Tal classe social nunca precisou preparar sua própria comida, porém sempre souberam o que é falta dela. O solo pedregoso e invernos rigorosos não permitem o desenvolvimentos de alimentos que não rasteiros ou de arbustos, sendo então uma alimentação baseada em trigo e alguns legumes. Em longos invernos, tanto camponeses quanto nobres sofriam racionamentos. Nenhuma divisa humana é capaz de conter a fome e a sede.
Assim as narrativas cosmológicas Tupi, base da religião por eles praticada, se faz um compêndio de saberes. Mas cada povo expressa de uma forma. Os nômades Xinane uma grande ave percorre os céus semeando os homens pelo mundo. Para alguns povos todos nos viviamos no fundo da terra, até que um tatu mágico abriu o burraco pelo qual os homens e outros animais chegaram até o melhor lugar para se viver em toda superfície da terra. Outros dizem que descemos dos céus, por cordas. Ainda há os que acreditam que nascemos da terra, como plantas. Outros ainda crêem que somos puro barro. Essas explicações não são puramente fantasiosas, elas também passam por pensamentos lógicos e pedagógicos, expressando a reflexão coletiva sobre a origem de todas as coisas existentes e como elas se relacionam dentro de determinado modo de vida.
Notem que a explicação sobre a origem humana relaciona de alguma forma o Ceú e a Terra, como partes criadoras de tudo, incluindo o Homem. Essa linha de pensamento não é exclusividade Tupi, mas sim principal linha de racionalização da fé por todo o globo terrestre.
Assim a cosmologia Tupi passa pela conciliação e integração do Ser, com o material e com o imaterial. Tal pensamento religioso Tupi passa por entender nossa realidade como um reflexo de um plano espiritual. Sendo admitido a possibilidade, remota, de passar deste plano para o espiritual sem atravessar a morte, o que chamam nhemonkandiré. Em termo católicos, ascensão aos céus, o que ocorreu com Nossa Senhora, segundo a tradição romana.
Nesta visão trina o Ser, o eu, o Humano, a Sociedade, é resultado resultado direto da integração do material, do planeta, a Grande Mãe Terra, A Lua, com o imaterial, os Espíritos, o Grande Pai, o Céu, o Sol. Em algumas culturas pertencentes a grande nação Guarani esses espíritos são chamados de Sypave, a Mãe dos povos, e Rupave, o Pai dos povos.
Mas a força criadora não é desses espíritos. Eles são a primeira criação do Grande Espírito: Nhaderuvuçu, nossa Pai Verdadeiro, ultimo-ultimo primeiro. Tal espírito é puramente imaterial, vive em outro plano, sendo impossível a qualquer homem se comunicar ou interagir com tal entidade. É como se o Universo fosse um rastro do poder que já passou, tudo o que vemos e sentimos é a sombra longínqua de Nhanderuvuçu.
A força do Pai Verdadeiro vem do Oguera jera, um movimento autogerado em contínua expansão universal e geradora. Uma força que desdobra-se a si mesma gerando vida material e imaterial. Desde movimento nascem Então no plano espiritual: Karaí Tataendy Já, Senhor do Fogo; Jakaíra Tataxina Já, Senhor da Fumaça; e Tupã Paraguaxu Já, Senhor da Grande Água.
Oguera jera se desdobra continuamente. Seu próximo movimento foi é Kuaárara. Somente então temos a criação do nosso Universo, uma cópia imperfeita do espiritual. No Xingu, umas das maiores celebrações, que envolvem grande parte dos Tupi é o Kuarupe (pesquisem na internet, é lindo). Contam os pajés que quando os primeiros homens começaram a habitar a Terra, havia um filho dos espíritos que se dedicou a entender esse mundo e passar tais conhecimentos aos homens, a fim de que pudéssemos sobreviver e viver melhor neste mundo imperfeito. O sábio então descobriu uma forma de vencer a morte, convocou todos para uma grande festa, pediu que preparasse um tronco fincado no chão. É a ligação da Terra com o Ceú. Começaram por enfeitar o tronco, cantaram e dançaram a sua volta, lembrando os entes queridos que partiram. E o tronco começou a mudar. A noite, o Sábio alertou que ninguém saísse das ocas, nem espiasse o pátio da oca dos pajés. O tronco estava se transformando em humano, e dançando ao som da música e do canto do povo. Mas um não respeitou o pedido do sábio e o encanto se quebrou na hora. O tronco voltou a ser tronco e o sábio ficou furioso. Até hoje os povos cantam e dançam em busca de superar a morte, e trazer os entes queridos de volta, mas o Sábio já havia alertado que só havia uma chance. Os Guarani chamam esse ritual de Yvy Mba’e Meguá, uma forma de tentar se libertar da forma terrena imperfeita, alcançando o Aguyje (madurez acabada, estado de perfeição). Dos 3, o último dia do Kuarupe é vedado aos visitantes.

JM 16-8-19 – T.I. 18-8-19

Comentários

2 comentários em “Arandu porã”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s