Arandu porã II

No ensaio anterior apresentei algumas bases que suportam a afirmação de que a devoção Tupi consiste em um compêndio de saberes, transmitidos por gerações pela oralidade (no caso Guarani há pelo menos 6000 anos), essenciais a vida de qualquer um que necessite de uma relação mais direta com a produção de alimentos. Neste movimento o sistema produtivo Tupi se difere da construção e aprimoramento das práticas e técnicas agrícolas aplicadas em larga escala pelos europeus. Aqui os agrupamentos humanos se organizam para manter o equilíbrio e a melhoria dos alimentos que sempre existiram em abundância, aprimorando ecossistemas produtivos integrados e semi-integrados. AgroFloresta é novidade só pra branco. Daí a formação de sociedades tão similares na essência e tão dissonantes na expressão cultural. Por todo continente a fé liga o indivíduo a coletividade, criando modos de vida que priorizem a preservação e melhoramento das florestas como ação efetiva para alcançar Ára pyau (Tempo-Espaço Novo) e por consequência o indivíduo pode alcançar Aguyje (Estado de Perfeição). Lembrando que, as florestas sempre produziram alimentos, medicamentos e entretenimento. Nisso consiste o cerne do pensamento religioso em questão: Alinhar o indivíduo (Eu) com o plano material (Necessidades) e com o plano imaterial (Desejos, sonhos). Isso é o que chamo de verdadeira trindade divina. Manter esse equilíbrio é o Belo Saber, Arandu porã, de Nhanderuvuçu.
Assim passamos para a Cosmologia Guarani. Nhanderuvuçu é o marco zero do nosso tempo-espaço atual, Ñande ru papa tenonde [Nosso Pai, ultimo-ultimo primeiro]. Tudo o que existe, o que vemos e o que não vemos, é reflexo imperfeito de Nhanderuvuçu. A força de ação Dele é chamado Oguera jera, se trata de um movimento auto-gerado e gerador, desdobrando-se em si mesmo, como desabrochar de uma flor. Assim se cria os três primeiros grandes espíritos criadores (não tão simples assim): Karaí, Jakaria e Tupã. O reflexo imperfeito desse movimento é chamado de Kuaárara, a criação no nosso plano, a Terra, o Sol, a Lua e as Estrelas. Salienta-se que nesse pensamento religioso sempre foi aceito que o Homem não habita somente este sistema solar.
Karaí tataendy Já, senhor do fogo, seu reflexo é a criação do nosso universo, nosso Céu, o Sol, nosso Pai, Rupave; Jakaria tataxina Já, senhor da fumaça, seu reflexo é a criação da Terra, a sabedoria da vida, nossa Mãe, Sypave; Tupã paraguaçu Já, senhor da Grande Água, seu reflexo é a criação do verbo, da fala, do próprio homem, o indivíduo e a organização coletiva. E assim se dá, grosso modo, a relação entre as principais entidades espirituais.
Então, um pouco sobre o Kuarupe. Hoje a maior confraternização indígena do Brasil, ocorrendo anualmente no parque do Xingu. A questão que envolve o Kuarupe é a confirmação dos limites sociais e celestiais. O indivíduo se vai, cumprindo seu ciclo neste plano, mas outros ciclos permanecem, como a aldeia, a família e a floresta; nesta ordem de longevidade. A grande lição do Kuarupe, nesta análise (há muitas outras lições), é que sempre tem um recomeço, se não aqui, no plano Espiritual.
Essa vida é imperfeita, adoecemos e a infelicidade está sempre presente, somente pela vida em sociedade é que podemos nos tornar perfeitos, Aguyje, e isso é representado pelo canto e pela dança. Momento em que todos se pintam, se enfeitam com flores e penas, assim como se enfeitam os Deuses para dançar a dança que mantém a vida. O Cocar é a Coroa Solar. Todos usam cocar nas festividades, cada qual rei de si mesmo, representação da face metamorfoseada de Nhanderuvuçu. Dançam juntos e as bocas entoa a mesma divina canção. Então não existe mais o indivíduo, ele foi incorporado formando uma grande e forte entidade: a comunidade. Uma cópia dos grandes Espíritos. Mborayu, é a “solidariedade comunitária”, o que os católicos mais tarde traduziram como “amor ao próximo”. Pierre Clastres, em 1974, depois de 10 noites de conversa na fogueira com líderes religiosos do povo Guarani escreve:

“Na origem do tribalismo guarani encontra-se a divindade da Ayvu: o ser social da tribo enraiza-se no divino.”

Pierre Clastres, 1974

Nesta linha de pensamento é que se desabrocha a relação entre o Tempo Cosmológico e o Tempo Social, criando um calendário cíclico com base nos ciclos do Cajueiro, sendo o ano chamado: Akayu; e na cultura do Milho. Passando por um profundo conhecimento sobre os movimentos intergaláticos, considerando também os ciclo reprodutivos e geracionais dos animais. Os ciclos menores: o que chamamos de mês, são os ciclos da Lua; e o que chamamos de ano, são os ciclos do Sol; são observados por todos de forma simples. Havendo também ciclos mais complexos, como as casas estelares e outros eventos cosmológicos, marcando alterações no clima.
Havendo ainda um fator muito pouco estudado: os Karai. Em geral são um tipo de Pajé avançado, que vive em isolamento. Indícios das narrativas dão a entender que eles determinam os ciclos das grandes migrações. Essas migrações tem caráter messiânico: O Karaí busca determinado povo para assumir posição de Mestre da Palavra, Ñe’ë Jara, o que chamamos de profeta, assim conduz literalmente todos para Ywy mara eÿ, a Terra Sem Males. Tais migrações não são mais possíveis devido a constante redução das florestas e reservas indígenas. O movimento que o povo Guarani vem executando é o de buscar determinados recursos nas cidades, passando temporadas nas vilas e cidades, assim como para estudar, fazendo das aldeias lugares sagrados. Também se mantém o hábito semi nômade de passar grande temporadas na casa de parentes distantes. A Grande Nação Guarani (cerca de 284.800 ava) circula entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso e Pará, além da Argentina, Bolívia e Paraguai.
Nota-se que em geral nas devoções praticadas pelos brancos o número 1 tem grande valor. A unidade do ser e de Deus é sempre exaltada, numa relação privada, unilateral Deus>Homem. O número 1 é o líder, o pioneiro, é o próprio Eu, é a originalidade, é o poder. Pierre Clastres desejava coletar outras versões dos principais saberes Guarani, para comparar aos coletados por León Cadogan (na década de 50). Acabou por coletar explicações inéditas, a fé Tupi beira o segredo. Destas conversas Clastres se debruça sobre a fala de um Sábio: “As coisas em sua totalidade são uma. E, para nós, que não havíamos desejado isso, elas são más”.
Enxergamos apenas um mundo, enxergamos no outro apenas um indivíduo. Numa filosofia pré-socrática parece justo o “1” ser representação de algo poderoso, algo essencialmente “bom”. Porém para os Guarani, povo dos Ava, eleito pelos Deuses para transformar Ywy mba’e megua (a Terra Má) em Ywy mara eÿ (a Terra Sem Males), a perfeição é o “2”: Tempo Cosmológico + Tempo Social; Homem + Espírito; Corpo + Fala; Eu + Deus = Ser Perfeito, Aguyje. Quando se sai da solidão do indivíduo e se chega na solidariedade comunitária (Mborayu), havendo harmonia com a Terra, o indivíduo pode alcançar o Nhemonkadire, a ascensão de corpo para Nhanderuvuçu, Ñande ru papa tenonde [Nosso Pai, ultimo-ultimo primeiro].
O alicerce da fé Tupi está no enfrentamento do próprio ser, incluindo sua solidão, tristeza e infelicidade, assim como a doença e a morte, buscando alívio, felicidade, alimento, remédio e entretenimento, na vida comunitária e nas florestas. Nesta vida comunitária é que também se mantém os trabalhos para que a Floresta continue florescendo, como Oguera jera: se desdobrando em si mesma, mas com alguma ajuda nossa. O coletivo sempre supera as imperfeições e adversidades individuais.

JM 22-8-19 – T.I. 25-8-19

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