Arandu porã III

Esse é o terceiro ensaio sobre aspectos do que eu chamo de Cosmologia Tupi, uma teorização generalista da fé nativa brasileira a partir do limitado conhecimento que temos sobre os povos, tendo como principal base a cultura Guarani Mba’e.
No primeiro ensaio o foco foi apontar a ligação da fé com o sistema produtivo, revelando a estreita relação da prática religiosa com o trabalho de cultivo das Florestas. Sempre lembrando que as Florestas produzem alimentos, remédios e entretenimento. O equilíbrio do ecossistema é fundamental para a preservação da vida neste mundo imperfeito e isso é passado pela tradição religiosa Tupi.
Depois, no segundo ensaio, ousei entrar no campo ainda mais reservado aos Pajé, a filosofia religiosa Guarani e a principal diferença em relação ao pensamento religioso mais aceito atualmente no Brasil, a onipresença do Deus Cristão. Nhanderuvuçu também é um Deus vivo, mas não uno, nem presente. Tal Deus é anterior ao nosso Tempo-Espaço, ele provoca o “Big Bang” [Kaárara] e jamais interage diretamente com este plano. As coisas não existem assim de um momento pro outro, tudo é uma construção, um processo. Assim a força de Nhanderuvuçú, Oguera jera, como o desabrochar de flor, cria o nosso Espaço-Tempo. No plano Espiritual nascem os 3 Corações Grandes: Karai, Jakaira e Tupã. Esses Espíritos primários criaram e governam nosso mundo. Ao longo das gerações os Espíritos e seus enviados foram ensinando aos povos como melhor viver nas Florestas. Esse processo raras vezes é literal, como no caso do Ancião Yanomaká Kumã, falecido aos 102 anos de idade, em 2017 (Que Mavutsinin te conduza ao tempo dos avós na aldeia dos ancestrais!) considerado o maior Pajé do Brasil, sendo o último que conversava diretamente com os Espíritos. Na sua cultura os Espíritos recebem o nome de Mamaé. Sapaim Kamayurá, como era conhecido no mundo branco, teve sua primeira experiência extrassensorial aos 10 anos de idade, por 3 meses ele recebeu, em sonhos, diversos Mamaes: das matas, das águas, dos ventos, da terra, entre outros; lhe ensinaram sobre cura, sobre as ervas, sobre música e dança. A partir dos anos 90 ele ficou conhecido por todo o mundo, realizando cura em todo tipo de necessitados, de celebridades, autoridades políticas e diplomáticas, especialmente aos diversos povos xinguanos e outros povos indígenas, em especial no Xingu, onde viveu.
Os pajés, em sua maioria, buscam reconhecimento na medicina, pelo profundo estudo da herbologia brasileira de uso medicinal. Reforçam o caráter de curandeiro, deixando para segundo plano ou se desligando totalmente do papel de líder religioso. Sapaim foi uma raridade. Neste movimento devemos lembrar também que ainda é usual a prática da Doutrinação Cristã, o que chamam de evangelização. Provocando os nativos para o abandono não somente suas crenças, mas também do seu modo de vida: o trabalho de cultivar as Florestas; afastando todos de alcançar Aguyje.
O movimento cristão é aliado ao movimento de urbanização, relação que o capital explora nas formas mais lucrativas possível. Enquanto que na relação social chamada de “tribal” há interdependência entre natureza e cultura, efetivando um sistema produtivo racional e em harmonia com o exossistema global, senão superando-o. A fé cristã se distancia mais das questões práticas e/ou pragmáticas, como a produção de alimentos e/ou da comunhão do alimento real, dos remédios reais e do entretenimento, sendo cada vez mais uma relação subliminar e subjetiva entre o Homem e o Divino. Um Deus vivo e presente, mas que somente responde pelo pastor.
Em uma conferência na Universidade de Brasília, em 2016, duas frases me chamaram muito atenção. O conferencista era o Pajé conhecido pelos não-indígenas como Álvaro Doethiro [Tukano], da Bacia do Rio Negro:

“Nunca param de estudar os índios. Mas quando o índio está lascado, não tem nenhum padre ou pastor que vem. Sobra problema pro Pajé..”

“Segredos, sempre serão segredos. Mas aqui, estamos numa universidade, que é uma roda de sábios. A universidade é pra desenvolver a inteligência humana. Para melhorar o conhecer outros povos, pra poder se respeitar.”

Pajé Álvaro Doethiro

Assim como em outras profissões de fé, na visão Tupi o Homem também é criatura superior, sendo eles os escolhidos dos Deuses para auxiliar no trabalho de recriar o Mundo. Não existe o pecado, não existe culpa. Existe uma dívida dos Deuses para com os Homens, e a Promessa Ywy mara eÿ [Terra Sem Males]. Mas essa comunicação somente se efetiva pelo Mborayu [solidariedade comunitária], o que os cristão traduziram como “amor ao próximo”, o que não muda o entendimento do conceito do termo Tupi. Não havendo o pecado e o mal, a relação se dá na dualidade complementar do material com o imaterial: Homem + Espírito; Corpo + Fala; Eu + Deus; Tempo Cosmológico + Tempo Social; Indivíduo + Família; Realidade + Sonhos = Ser Perfeito, 2, Aguyje.
Os indígenas tradicionais têm ciência da incapacidade da grande maioria dos cristãos de compreender que existe vida sem culpa. Nheë porã é a Bela Fala: o nome próprio e a comunicação divina. Nheë porã se trata de busca, não de determinação. Nheë porã majoritariamente é o silêncio. O silêncio é entendido equivocadamente como segredo e ocultismo. A riqueza poética e diversidade cultural dos muitos deuses é dado como herético, e o herético é dado como crime. Os Deuses, Espíritos, Heróis, Sábios, e toda gama de entidades que coexistem nas mentalidades politeístas, são considerados pelos cristãos como obra do demônio, e Deus se torna autoritário e perverso. Notemos que o mesmo ocorre entre os povos primitivos Europeus. Se num primeiro momento a Igreja Primitiva, com forte ação político-social, era marginalizada, sendo a fé do povo, no segundo (ainda em vigor), os não-cristão passam a ser marginalizados. Ocorrendo diversas “caças às bruxas” queimando mães vivas em praça pública (punição para os que não se convertam). Cristo se tornou no Mundo o bode expiatório de Tiranos, exploradores não só da fé do povo, mas de no mínimo 10% de todo o suor dos trabalhadores, que somente são convertidos em bens materiais cujo uso é restrito dos executivos de Cristo. Em geral a atual fé cristã de Jesus só multiplica deputados, quase nenhum pão, tão pouco conhecimento. O imposto que mantém escolas públicas é dado como “roubo”.
Não único, mas o que mais ganha repercussão é o caso do Ongusu [casa de reza], do Ñanderu Getúlio Juca e da Ñandesy Alda Silva, do povo Kaiowá, foi incendiada em julho de 2019 (Ru e Sy são termos indicativos para Pai e Mãe). É a segunda vez que o Ongusu da mesma aldeia sofre incêndio criminoso depois dos anos 2000. A notoriedade sobre Gwyra Nhe’engatu Amba se dá pelo fato de ser o único Ongusu em funcionamento na região de Dourado, e sendo referência cultural do Estado do Mato Grosso do Sul. Além do espaço educacional sobre as questões da floresta, um artefato sagrado para o povo Kaiowá foi perdido. Xiru é um tipo de cruz de madeira. Em Gwyra Nhe’engatu Amba haviam 3 Xiru, o queimado tinha aproximadamente 180 anos. O local é ponto de encontro de lideranças e estudantes da cultura Tupi, abriga eventos de diversos tipos, assim como recebe diariamente pessoas de toda as esferas para vivências e aconselhamentos espirituais. Tornando-o local sagrado.
Devemos aprender que ninguém ouvi Nhaderuvuçu, apenas contamos diferente uma mesma História: a História da Humanidade na Terra. Pode chamar de Ála, Deus, Senhor, Nhaderu, Arquiteto, Criador, Grande Espírito, Olorum… Ele é o Fim e o Começo, é o Universo e não é nada, pode ser nenhum e pode ser todos. E somos todos irmãos, só que uns usam gravatas como adorno, outros penas.

JM 27-8-19 – T.I. 01-9-19

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