O problema da cocaína

Me entendo como antiproibicionista. Acredito numa sociedade cujos indivíduos sejam capazes de conhecer seus próprios limites, que por conta própria cessem o uso de substâncias e alimentos prejudiciais para sua própria saúde. Essa é a única forma de acabar de vez com qualquer comércio, clandestino ou não. Proibição é palavra, palavra é vento… e com o vento vem o pó. Nessa altura os ouvidos já estão surdos. Escutam, mas tamanha aceleração dos pensamentos impossibilita manter discernimento.
Em Itapira, observei casos de utilização da cocaína para aguentar trabalho em dobro. Jovens recém casados querendo adiantar a formação de um lar. Também existem os que fazem uso consciente e recreativo. Poucos optam por produtos de origem mais confiável, observando com mais atenção para a qualidade. Redução de danos é a chave.
A proibição é altamente prejudicial na situação que o Brasil se encontra. Pois a proibição leva a omissão. E é preciso falar sobre as coisas de forma mais clara possível, sem medo, sem culpa, sem prejulgamentos, afastar os preconceitos, mas com conhecimento e sabedoria.
Quem determina o crime são somente os Juízes, nós somos as Rês. Tudo é crime. Por isso não votamos em quem vai melhorar a máquina pública: No fundo é medo de ser preso; Não pode mais nem desenho de beijo de amor. Fuzil e sangue pode. O branco acotovela o negro que ta na mesma algema. Ridículo. Além disso, existem coisas que não deveriam ser entendidas como crime. Deveria existir pena por chinelada de mãe em praça pública, não importa a idade. Caso não apresente “mãe” o Estado arcará com uma, não para casos de adultos usuários de substância psicoativas.
Usuários de substância psicoativas, no máximo compõe parte do problema da Saúde. Jamais criminal. Camaradas, é mais fácil a filha matar os pais por herança. Mas ninguém fala de proibir herança. Os filhos que façam por merecer, herança é assistencialismo. Coincidentemente o uso da cocaína é mais frequente entre jovens que têm herança.
Outro ponto que é preciso falar, é sobre o “fazer mal”. Hoje sabemos que para determinados indivíduos o leite faz mal, para outros o açúcar, outros ainda o glúten. Proibiremos essas substâncias e alimentos também? Não. Cada indivíduo por conta própria é totalmente capaz de entender seus limites e riscos. Obviamente que com qualquer quantidade, e por mais cuidado que se tenha na utilização da cocaína, os riscos são sempre incalculáveis, assim como não existe um único tiro, mas sim “só mais um”. É preciso entender que substâncias psicoativas influenciam o funcionamento da rede neural, e nosso conhecimento neural ainda não possibilita prever adequadamente cada efeito colateral de cada substância psicoativa. É preciso mais pesquisas nesta área também, pois aspectos isolados de cada substância podem ajudar em tratamentos diversos. Sabemos por exemplo que aspectos do SLD podem ser a chave para a cura da depressão. Assim como comprovamos indicativos que possibilitam afirmar que a cocaína traz graves consequência como decadência dentária severa, disfunções sexuais e depressão severa.
Aos 15 anos eu saí de casa. Sou menino de roça, jamais ficaria 3 anos fechado nas dependências da escola-fazenda. Antes de completar 6 meses em Inconfidentes, no caminho para um rodeio o tropeiro do gado de pulo, para o carro na rodovia, arruma as linhas sobre a carteira e me oferece. Antes disso eu já frequentava rodas de fumo, nunca me ofereceram nem de brincadeira. Não me arrependo de ter negado a cocaína, sou é grato. Coleciono só histórias tristes com usuário de cocaína. Um amigo que amo muito teve 3 princípios de overdose. Um pai querendo trabalhar mais, largando filho e mulher para se tratar em clínica. E muitas, mas muitas mesmo, conversas vazias, sem lógica, sem coesão, sem contexto e sem atenção. Poucas substância fazem tamanho estrago nos seres humanos. Uma das pessoas que considero muito inteligente no meu círculo está completamente perdido e não enxerga a gravidade de sua situação, tendo tentado o suicídio mais de uma vez, passou a atacar as pessoas que sempre estiveram do seu lado. Se referindo a elas sem o menor pudor e respeito, critica Bolsonaro mas age ainda pior. Lamentável.
As únicas vezes que frequentei espaço de reabilitação de dependentes químicos foi entre os anos de 2007 e 2008, era acólito do Padre Carlos Panassolo, nos Prados, e o acompanhava em muitos lugares. Ele ia tomar confissão dos católicos internos, outros me procuravam para contar histórias. Esses espaços são importantes, mas por si só e compulsoriamente não resolvem nada. A mudança tem de ser interna primeiramente.
É preciso voltar a investir em educação e pesquisa, para sabermos aplicar os métodos. Não o inverso, como alguns pastores fazem por todo o Brasil com recursos públicos. Depois, em Campinas passei a frequentar as escadarias da Conceição na hora do sopão. Não sou nenhum especialista no assunto, apenas observo a realidade que nos circula. Gosto das belezas mas jamais fechei os olhos para o feio.
Em geral temos três tipos de “drogas”:
1. Psicodélicas: LSD, MDMA (ecstasy), cannabis (maconha) e outras substâncias derivadas de plantas ou cogumelos (ayahuasca, ibogaína, sálvia, mescalina, psilocibina etc.); 2. Depressoras: ansiolíticos (tranquilizantes), álcool, inalantes (cola, loló/lança) e narcóticos (morfina, heroína); 3. Estimulantes: cafeína, tabaco, anfetaminas, cocaína e crack.
A cocaína é estimulante com propriedades anestésicas. A coca, cujo mastigar a folha inibe a fome e o frio, também auxilia na respiração rarefeita dos picos andinos há mais de 3.000 anos. Folha Sagrada, jamais deixará de ser produzida. Além disso, é a base de grande variedade de medicamentos usados por todos. A base da cocaína chega às toneladas em Itapira: ilegalmente para as biqueiras e legalmente para a farmacoquímica.
O principal efeito da cocaína no sistema nervoso humano é criar a sensação de felicidade, o usuário ficará agitado em função da aceleração de todo seu sistema. O cérebro sofre uma profunda alteração em seu funcionamento, iniciando produção acelerada de diversos hormônios. Ficar feliz sem motivo é complexo, exige muito do nosso cérebro e corpo, mas é sempre uma experiência boa e se quer sempre mais e mais. O que não fazemos pela nossa felicidade?!
Tudo tem um preço. A felicidade também, e por meio da cocaína é mais caro. Após os primeiros 40 min de felicidade o organismo reverte a função. Depressão e impotência assumem posições pedindo mais felicidade, que só vem com mais um tiro. Alguns usuários ficam por dias nesse ciclo vicioso sem dormir ou comer. O organismo exige uma quantidade cada vez maior de cocaína para provocar a mesmo resultado anterior. Com mais “combustível”: mais aceleração. Todo sistema sobrecarregado corre mais riscos de sofrer um colapso total.
Observe o quadro geral: o indivíduo está sem dormir e sem se alimentar, geralmente alia o uso de álcool (depressivo e catalizador da desidratação), mas o organismo está a pleno vapor, queimando as substâncias do pó (cuja cocaína é a menor parte) mas também queimando estoques de energia do corpo, provocando subnutrição e mal funcionamentos dos órgãos. Nada substitui sono e alimento. Rins, fígado e canais sanguíneos e respiratórios são os primeiros afetados. Com o tempo as consequências mentais vão ficando mais aparente. O cérebro deixa de reconhecer situações reais de riscos, provocando paranoias e alucinações; alteração do humor e do funcionamento cognitivo são outros sintomas positivos da esquizofrenia.
É conhecido que boa parte dos internos em clinicas psiquiátricas diagnosticados com esquizofrenia tem uma relação muito próxima e longínqua com a cocaína. É preciso entendimento especialmente por parte do próprio usuário, para buscar ajuda de profissionais especializados o mais rápido possível para evitar danos irreversíveis e/ou sofrimentos desnecessários.
Cada vida humana importa.

JM 11-9-19 – T.I. 15-9-19

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