Sobre 1820: contextualizando o local

“(…) o verde da relva, tão grato à vista, e os dos bosques, de coloração mais carregada. Ficamos a imaginar se esses capões de mato não são os restos da floresta que encontramos perto de Mogí-Mirim, e se a região não foi outrora coberta de árvores até São Paulo. (..) talvez, qualquer amante da natureza, terá saudades das brilhantes flores dos campos, da majestade das florestas virgens, dos cipós enlaçados em festões pelas árvores e da imponente voz dos desertos.”

Auguste de Saint-Hilaire (*1779 +1853)

Se trata de trecho das notas do botânico francês, Auguste de Saint-Hilaire, sobre sua vivência de 6 anos no Brasil entre os anos de 1816 a 1822. Ele descreve flores e florações, as benfeitorias, o cotidiano, os costumes e modos, as pessoas, alegrias e mazelas, entre outros aspectos que nos auxiliam a entender melhor nossas origens, parte do que somos ainda hoje. O quase aventureiro e botânico caminhou de Franca para Mogi Mirim e de Mogi Mirim para Jundiaí em 1819; Em outubro de 1820 foi derrubado mato no bairro dos Macucos, para que o povo ali fixasse capela em louvor a Nosso Senhora da Penha, marcando assim a fundação da Itapira que conhecemos hoje.
Ponto estratégico para expansão marítima dos povos primitivos europeus, foram os portugueses os primeiros a conclamar direito sobre essa parte do Novo Mundo. Pedro Álvares Cabral fez uma parada, instalou um marco de pedra no litoral norte do Brasil, representando a posse portuguesa (serviço de 3 dias), chancelando assim a primeira grilagem de terras do Brasil, e foi-se. De 1800 a 1820, em Mogi Mirim, 2 portugueses que não assinavam o nome, registram escrituras de doações de terras tupi aos imigrantes europeus: João Gonçalves de Moraes e Manoel Pereira.
Em 1532 fundaram o porto de São Vicente, somente em 1546 os portugueses conseguem se instalar no porto vizinho de melhor acesso às rotas de comércio continentais, assim é fundada Santos. A serra foi vencida pouco depois, fundando São Paulo em 1554. A partir de então, as principais rotas que cruzavam o interior do centro-sul da América do Sul passaram a ter cada vez mais influência do Império Português. Alegando ignorância sobre os limites acordados no Tratado de Tordesilhas, o maior empenho para colonizar o Brasil foi a coroa Portuguesa instigando paulistas mata adentro, seja por meio de riquezas/títulos/fama ou por meio do rigor da Lei.
As melhores mentes e mais avançadas tecnologias navais, incluindo a construção de navios e métodos de navegação, passaram pelos cais de Lisboa. De lá partiram inúmeras excursões, de todo tipo: Científicas, exploratórias, comerciais e bélicas; Logo em 1580 conselheiros da corte já comentavam sobre os benefícios logísticos, dada a geografia dos caminhos para a Índia por mar, com a possível transferência da capital metropolitana para a América do Sul. No entanto somente em 29 de novembro de 1807, “incentivados” pelas força napoleônicas, mais de 15.000 Portugueses deixaram lisboa rumo a Salvador. As 8 Naus, 3 Fragatas, 3 Briques e 2 Escunas, também carregavam, entre outras coisas do dia-a-dia do Porto, cerca de 60.000 livros que formavam a biblioteca real. Fazendo do Brasil o caso isolado de colônia que foi elevada a metrópole; inversão metropolitana que fala. Iniciando assim a História do Reino do Brasil. Quando se dá a Independência em 1822, busca-se equiparar administrativamente, nasce assim o Império do Brasil.
Desde 1500 para manter o controle ultramarino durante o que chamamos de colonização, a coroa portuguesa manteve discrição sobre aspectos naturais, geográficos, sociais e culturais do Novo Mundo. Em teoria, os portos do Brasil permaneceram chegados aos estrangeiros, correspondências e impressa só existam em vias oficiais da coroa portuguesa. Somente em 8 de março de 1808, com a chegada da corte, na nova capital do Império Português, Rio de Janeiro (fundada em 1565), é que toda gama de pessoas puderam desembarcar e embarcar nos nossos portos brasileiros legalmente.
A Torre do Tombo, principal arquivo público de Portugal, com atividade iniciada em 1378, sofreu muito nestes séculos: terremotos, guerras, incêndios, mudança de endereço, mudança de prédio, entre outras coisas do cotidiano da nossa existência que levam a perda e também a melhoria da condição de guarda, de documentos históricos. Um rascunho qualquer pode mudar a compreensão sobre nossos antepassados, por isso historiadores, antropólogos, cientistas sociais, economistas, geógrafos, linguistas, e toda gama de estudiosos, do mundo todo, ainda se acotovelam para passar algumas horas de posse de alguns documentos arquivados na Torre do Tombo. No entanto para leituras mais aprazíveis recomenda-se obras que registraram e apresentaram o Brasil deixando claros seus interesses e limites. E assim que podemos ter um breve vislumbre como seria a vida na nossa região no início do Século XIX.
É importante salientar que colonia, reino, império, república, etc, são termos que compreendem a visão da História Política Europeia. Os Guarani ainda se entendem como uma grande nação, vivem em diversas regiões entre o litoral atlântico e a cordilheira dos Andes, chamamos esses territórios de Estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Tetã Paraguái [nome oficial, em Guarani, do país vizinho]. Com mais de 5000 anos de História em 1500 já mantinham relações diplomáticas e rotas que ligavam São Paulo a toda América.
Quando os nativos, Tupi, compreenderam que as parcerias europeias eram de mão única, doenças europeias já haviam diminuído significativamente suas forças militares para resistência aos avanços da pólvora e do ferro forjado. Estudos recentes sugerem que em 1500 havia mais de 15 milhões de habitantes, espalhados por toda a América do Sul, e menos de 8 milhões na Europa. Teriam confundido a baixa imunidades dos nativos frente às mazelas europeias como preguiça?
Relendo Saint-Hilaire após ter uma breve noção dos recentes estudos arqueológicos amazônicos de Eduardo Neves, além de outros profissionais cujos trabalhos são complementares ao do recém admitido como Professor em Harvard, notamos que o botânico francês compreendeu que as florestas viventes em 1820 já eram apenas uma parcela do que fora antes. Segundo Neves, as Florestas Amazônicas e Atlânticas eram um elaborado sistema de manutenção de vida, onde não havia escassez de alimentos. Resultado de séculos de cultivo, plantio, seleção e cruzamentos genéticos de plantas e animais. Escavações de Neves e equipe, comprovaram a domesticação da mandioca em Roraima há mais de 22000 anos, e outros dados apontam para que cerca de 80% das plantas que conhecemos da Amazônia sofreu intervenção humana, seja genética ou plantio.
Sobre a personalidade do paulista de 1820 Saint-Hilaire escreve:

“Desde esse momento os paulistas constituíram, quasi sempre, um povo submisso e fiel, sem perda, entretanto, de seu gosto pelas aventuras e correrias longínquas, em consequência das quais não cessaram de fazer descobertas, até que não houve mais nada a descobrir.”

Auguste de Saint-Hilaire (*1779 +1853)

Reforçando aspectos do trato bruto e arrogância da miscigenação entre brancos, nativos e negros que forma a base identitária do povo paulista. O estereótipo do fronteiriço: sujeito que busca a vida entre duas culturas, geralmente habitando fronteiras, se adaptando e criando uma nova cultura. Assim os Paulistas são dotados do individualismo europeu e a vontade de se movimentar do tupi. Outros autores revelam a dificuldade que os representantes da Igreja e dos Reis tinham de localizar as famílias paulistas que, não habitavam a mesma casa e território por mais que 5 anos, construindo a próxima casa mais longe para quem vem da capital. Os vizinhos também se mudavam e pouco informação circulava para estrangeiros. Em diversas situações o francês reclama, e muito, e com razão, da falta de “hospitalidade” dos paulistas, sempre em contraposição aos mineiros e goianos, dados como mais gentis, organizados e limpos.

JM 2-10-19 – T.I. 6-10-19

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