Ytapirá

Y-ita-pirá

De fato somos filhos do inusitado. Conhecida no Mundo pelo pelo maior complexo de saúde mental da América Latina e também pelo refino de psicoativo, Itapira, tenta ser lembrada como: A Linda; pela sua real-oficial formosura geográfica.
Nunca espere algo de um itapirense, anãoser reclamação de suas próprias origens. Nada é mais brasileiro do que o Itapirense. Juro! E reparem, tem Itapirense em tudo quê lugar, em todas as esferas. Temos até suplente de Senador pelo Estado do Tocantins (Ogari Pacheco, fundador do laboratório Cristália [farmoquimica], terceiro candidato mais rico do Brasil em 2018), assim como somos os maiores fornecedores dos melhores garçons do Brasil para o Mundo.
O ser humano, em especial o Paulista, tem muita dificuldade de assumir a influência social em sua personalidade, entende sua cultura sertanista e interiorana como essência vital de todos os seres humanos. Em geral é mais fácil entender a influência social sobre o outro, no entanto mudanças profundas só ocorrem quando olhamos para o nosso próprio eu. O autoconhecimento estabelece o que se é, assim como o que gostariamos de ser, tanto na esfera ideal individual quanto na coletiva, essa é a nova ordem social. Sem obscuridades: Se antes essa motivação era colocada externamente: pela Igreja, pelo Governo e/ou pela Família e Comunidade; Hoje somos todos sumos-sacerdotes aos olhos dos Deuses; Como Reis, podemos escolher nossos representantes ideológicos políticos; A democratização do código escrito possibilitou melhor organização quanto colegas de trabalho, assim as tecnologias possibilitam uma vida muito mais confortável e fluida. Assim a razão de se viver deixa de ser colocada como regras, mandamentos e doutrinas, a serem seguidas para que a vida faça algum sentido no final, e passam a ser uma compilação dos desejos individuais a medida que ocorre a socialização de motivações internas em comuns entre pessoas não necessariamente nascidas em um mesmo local.
O processo do autoconhecimento não pode ser mais ser revertido. A investida da Extrema-Direita só desgasta ainda mais o processo de entrada dos Brasileiro no Século XXI. A bem da verdade, derrubamos todos os muros fronteiriços em 1989, não havendo mais soberania nacional fora de alguns poucos discursos ideológicos. Todas as cidades do Século XXI serão cosmopolitas. No entanto as fronteiras sociais são algo mais complexo, e aos meus olhos, as regionalidades devem ser exaltadas pois ela não se limita aos seus visitantes.
Pois bem, voltamos ao nome Itapira. Sua tradução mais elaborada, sendo o primeiro registro conhecido sobre, foi no Diccionario Geographico da Provincia de São Paulo, um compêndio geossocial Paulista.

Itápyra – Nome restituido á cidade da Penha do Rio do Peixe, por acto do Governo, n. 40 de 1º de abril de 1890, sob o fundamento de que “os indígenas assim designavam o rio que banha aquella povoação, por ser pedregoso e abundante de peixe”.
(…), Muito sábios na formação dos nomes locaes, pois que estes deveriam designar os carateristicos physicos da cousa nomeada, e não eram definitivamente acceitos senão após deliberação em assembléas (…), faziam os indígenas admiravelmente aquelle jogo linguístico, quando tinham de dar nomes a rios, lagôas, montes e outros logares (…)”

João Mendes de Almeida, 1902

Almeida tenta, a todo custo, desvincular o “peixe” do nome Tupi de Ytapirá. Chegando a propor que a grafia, numa visão linguística brasílica (como se costumava chamar as culturas tupi), mais correta seria: Itapirû – fundo pedregoso e escuro. No final, se revela por completo:

“(…) com o nome Ytapira, em referencia ao morro entre o mesmo corrego e o rio, onde foi edificada a matriz.”

João Mendes de Almeida, 1902

Eduardo de Almeida Navarro, hoje o maior especialista em Tupi Antigo, é catedrático linguístico da USP. Em 2007 lançou o Dicionário de Tupi Antigo: A língua indígena clássica do Brasil. Uma verdadeira obra prima, grandiosa e linda, extrapolando os limites da tradução literal, possibilita submersão na cultura estudada. No final ele se dedica aos topônimos e antropônimos, pois também reconhece a grandeza dos Tupi em nomear coisas. Deixa claro que não se pretende ser uma referência na tradução dessas nomenclaturas Tupi, mas para o caso de Itapira é uma das poucas fontes que temos livre acesso. Assim transmiti simplesmente: “Itapira (SP). De itá + byr + a: pedra erguida”; Proponho ao leitor parar agora e buscar na internet: Pico do Itabira. Todavia não me cabe colocar a prova sobre a relação paisagística com o Pico da Forquilha (Jacutinga, MG), cuja estética tenho me esbaldado nos desenhos e ilustrações. Já se considerarmos a História do Pico do Cauê, em Itabira, MG, teremos tristes reflexões sobre identidade territorial, capital e ambiente, além da questão paisagística.

Pico do Itabira
Pico do Cauê

“Campo de prata com uma montanha de azul carregada de uma flor de lis, de prata. Em contra-chefe, uma faixa de três ondas de prata, carregada de um peixe em vermelho.”

Lei Municipal de Itapira, n. 274, de 11-10-1956

Em 1970 o desenho das armas de Itapira foi questionado e revisado. A disputa entre os sábios heráldicos: Benedtio Calixto e Enzo Silveira; gerou carta aberta em jornais de ampla circulação estadual e nacional (lembrança sem revisão documental). Mas a essência sofre poucas ou nenhuma alteração: Branco, Azul e vermelho, são nossas cores. O peixe é nossa raiz renegada, a montanha azul nosso ideal, fora de nossas fronteiras atuais, fazendo dos rios nossos caminhos.
Jamais entenderei a negação ao Peixe quando este fora o símbolo primeiro do cristianismo. Seria o medo da cultura Tupi maior que a crença na doutrina religiosa cristã? Jamais saberemos. Fato é que, espiritualidades estão ligadas às características primordiais humanas, assim como Cristo repartiu o Pão Nosso, multiplicou também os Peixes Nossos, e os Vinhos Nossos de cada Dia!
Para colocar um ponto final sobre a questão do Peixe de Itapira, volto ao professor Navarro, cujo prefácio do Dicionário de Tupi é uma reflexão de Ariano Suassuna sobre a influência Tupi na cultura Brasileira. Leiam essa obra, é obrigatório para todos brasileiro que se deseja ser reconhecido pela sabedoria. Como significação do termo pira, ele apresenta duas versões: a primeira ligada a pipoca = pir [pele] + pok [estourar], logo pira seria a pele, como a pele do milho que estoura.

pirá (s) – peixe (…). NOTA – Daí se originam inúmeros nomes geográficos (v. Rel. Top. e Antrop. no final) e substantivos comuns no P.B. (…)

Eduardo Navarro, 2007

Não devemos nutrir esperanças que o Professor Navarro se debruce sobre tema para nos informar se cometeu um equívoco ou para informar sobre a fonte utilizada para traduzir Ytapirá. A confusão fonética de “p” por “b” não fora nem mencionada por Almeida em 1902, embora ele questione todas as outras possibilidades de confusão linguística com o termo. Mas também Já li em muitos outros lugares essa forma de traduzir Itapira. Porém as de Almeida e Navarro são as que considero de maior peso quanto ao estudo da língua Tupi em geral. No entanto, para ambos o termo Tupi Ytapirá foge de todas as regras que eles mesmo apresentam como base para o início lógico do raciocínio e reflexão sobre o tema.
Ainda motivado pela comemoração dos 199 de anos de fundação de Itapira, em 24 de outubro de 2019, no próximo ensaio escreverei sobre o “Y”, a marca do Rio das Pedras e dos Peixes.

JM 18-10-19 – T.I. 20-10-19

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