Y-ita-pirá 1.9

É preciso entender que nenhum vivente pode afirmar, empiricamente, sobre as corretas pronúncias e/ou traduções de palavras e conceitos que vagam pela História da Humanidade. Já é bastante complexo trabalhar com línguas vivas: basta assistir um filme estrangeiro legendado e depois dublado para notar como o uso das palavras podem mudar para contar uma mesma história.
No cinema como no Teatro, temos estudos profundos sobre cada sentimento encenado: cores, cenários, roupas, palavras, sons, objetos, etc. Tudo para passar ao admirável público um determinado aspecto da vivência humana. Mesmo assim, nem todos conseguem entender a mensagem. A escrita é uma forma limitada de arquivar sentimentos humanos, como diz o ditado romântico: “não existem palavras suficientes para descrever o que se senti”. Do mesmo modo é impossível impedir o ser humano de tentar expressar esses sentimentos em palavras.
Indícios sugerem que códigos escritos já haviam sido elaborados em algumas culturas Tupi, no entanto o volume de informações, sobreviventes aos últimos 500 anos de extermínio das culturas nativas brasileiras, é tão limitado que torna inviável a tentativa cientificista de reconstrução fiel das línguas faladas ou escritas. Deixando muitas lacunas abertas para que estudiosos e entusiastas se divirtam na imensidão das hipóteses. Lembrando que existem os regionalismos.
Falamos em extermínio não somente pelos atentados diretos contra a vida dos cidadãos indígenas brasileiros, mas especialmente pela falta de instrumentos e aparelhos, públicos ou privados, para auxiliar a manutenção das culturas nativas. Havendo, aparentemente, um empenho maior pelas causas africanas, o nativo vai de carona. Nem a ciência é exceção a essa regra. O que temos são trabalhos isolados de alguns dedicados estudiosos e entusiasta, É preciso muita sensibilidade para tratar de tal assunto, ainda mais quando o interlocutor, como neste caso, é branco e com quase nenhuma vivência nas culturas Tupi. Porém o acesso a informação, hoje, é muito maior que há 20 ou 30 anos, o que pode significar que temos a disposição para estudos uma reconstrução muito mais elaborada sobre o teria sido o Tupi Antigo em 2007 do que entre 1700 à 1900.
Já encontrei algumas formas diversas sobre a tradução de Itapira. A mais curiosa seria que o termo remete a grande presença de Tapir [Anta], o que também teria ligação com a forma de vestimentas dos habitantes, tendo como principal matéria prima o couro de Tapira [animal da floresta] e de Kapi’wara [comedor de capim]. Essa entre outras guardo na memórias das curiosidades, não temos informação nenhuma sobre a veracidade de tais especulações. Já a versão oficial amplamente divulgada desde 1902 pelo Diccionário Geográphico da Provincia de São Paulo, registra o seguinte:

“De yta, ou mesmo ita, ‘pedra, morro’, apir, ‘ponta’, com o accrescimo de a (breve), por acabar em consoante, segundo a lição dos grammaticos: ‘ponta de pedra’ ou ‘pedra pontiaguda’, dando a idéa de ‘penha, penhasco’ eis o significado exacto do nome Ita-’pir-a”

João Mendes de Almeida, 1902

Penso ser relevante registrar que, na cidade de Itapira não existe um exemplar público para livre consulta do Diccionário Geográphico da Provincia de São Paulo. Somente tive acesso a integral a obra pelo excelente serviço prestado virtualmente pelas bibliotecas públicas da USP. Também julgo ser importante registrar que em alguns lugares a citação falha até com o nome do autor. João Mendes de Almeida, maranhense conservador e abolicionista, ficou conhecido como jurista, jornalista e político. Foi dele a Lei do Ventre Livre.
Imaginem só: Em 11 fevereiro de 1888, mais de 200 pessoas se reúnem para assassinar violentamente o policial abolicionista Joaquim Firmino (dias antes tinha sido exonerado do cargo de Delegado), na frente da esposa e de suas filhas. Sobrenomes importantes de nossa História eram os mandantes, em especial um escravagista Americano-Sulista refugiado. Todos os jornais do Brasil escreveram sobre o “crime da Penha”. Em maio do mesmo ano a abolição foi assinada. Resultado veio um pouco mais tarde:

“(…) A intendência municipal desta cidade da Penha do Rio do Peixe, em sua sessão de hoje, resolveo por votação unânime, representar-vos no sentido de ser mudado o nome que esta cidade conserva, digo cidade e município tem conservado até hoje, pelo de cidade e município de – ITAPIRA – satisfazendo assim, o desejo de grande parte de sua população. Esta indicação tem por fim apagar qualquer sombra que o passado possa projectar sobre o futuro desta Cidade, riscando do quadro das cidades paulistas um nome execrado por mais de um título. Saúde e fraternidade. Paço municipal da Penha, em sessão de Intendência, 8 de fevereiro de 1890”

Câmara Municipal da Penha do Rio do Peixe, pg 85

Revelador que a municipalidade, sem nunca ter exaltado qualquer aspecto da cultura nativa local, e querendo esconder seus aspectos mais vis, desconsidere o “Y” desde o início, mas não exitou em tomar como oficial a versão cristianizada de um conservador abolicionista, vivente entre Jundiaí e Maranhão, desconsiderando também tudo o que já estava estabelecido, inclusive (ao que se registra) contra a sabedoria popular local itapirense.
O “Y” Tupi, é um mesmo do Russo e do Romeno, seu som inicia como “u” com a boca fechada, então incorpora e finaliza em “i”, com a característica presença do som de “~” como consoante. Esse é um dos sons da criação, uma das palavras sagradas para os nativos, pois representa o conceito de Água, como fonte de toda Vida. Os portugueses contam que o espírito masculino protetor dos mares, Ypupîara (y, água; pupé, dentro; e ygûara, morador), foi morto em 1564 no litoral da Capitania de São Vicente. Yîara, Senhora das Águas, ainda vive no fundos dos rios da bacia Amazônica.
Licença para um parênteses linguístico. O Português tem fortes bases sobre a escrita, os acentos indicam a forma correta da pronúncia e os radicais tem seu valor somente na gramática. A conjugação de verbo é uma variação das antigas declinações do Latim. O No entanto Tupi está mais próximo do Alemão, onde a fala ainda é mais valorizada que a escrita, motivando não a invenção de palavras, mas a junção delas para dar sentido ao que se está nomeando. Na prática: Latinos dão nomes de santos, ou qualquer coisa que se goste ou se deseje homenagear; Germânicos e Tupi buscam explicar a coisa nomeada, latinos lhe dizem para ler um livro para entender. Exemplo: Podemos chegar em São Paulo (Apóstolo de Cristo) pelo Tietê (t-Y + eté = Rio Verdadeiro / Rio Genuíno), num Ygarusu (Y-gara + usu = Canoa grande), mas também podemos ir de Flugzeug (do alemão Flug de voo e Zeug de coisa = coisa que voa = avião) ou de Volkswagen (Volks + Wagen = automóvel do povo. PS. Uma variação falada de Volk é Folk, e Lore é ensinar; logo Folclore seria o ensinamento popular).
Mesmo que exagerando no uso do “Y”, o Estado cumpre seu papel na manutenção da memória cultural de seu Povo independe da fé professante. Assim a memória Tupi é resguardada por força da Lei dos brancos:

“O Governador do Estado, atendendo ao que representou o conselho de intendência da cidade da Penha do Rio do Peixe, sobre a conveniência de substituir a denominação daquella cidade pela de Ytapyra, nome com que os indígenas designavam o rio que banha aquella povoação, por ser pedre­goso e abundante de peixe; Decreta:
Artigo único. A cidade de Penha do Rio do Peixe será denominada cidade de Ytapyra ; revogadas as disposições em contrário.”

Decreto Estadual n. 40, de 1 de Abril de 1890

Rumo ao Bicentenário fica registrado minha homenagem ao Povo esquecido que habitava as margens do Rio das Pedras e dos Peixes, Ytapirá.

JM 18-10-19 – T.I. 27-10-19

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