Símbolo musical de Itapira

Existe uma diferença crucial entre Memorialista e Historiador: a compreensão do macro-contexto que envolve a rotina das pessoas. Assim o Memorialista, reproduz e valoriza o conhecimento das gerações passada, enquanto que o Historiador, analisa e traduz esse conhecimento para o presente.
Embora com profundas diferenças ideológicas, admiro muito o trabalho do Memorialista Marcio Carlos quando atuante no Museu de História de Itapira. Até hoje consulto muito o http://marciocarlosblog.blogspot.com/, recomento muito, é um resumo legal de muita coisa, com referências documentais interessantes e importantes sobre esses 200 anos de Itapira. No dia 10 de junho de 2011 ele escreveu sobre o hino de Itapira:

“Uma coisa que me chama sempre a atenção é que a conjugação do verbo “unificar”, pela cópia apensa ao projeto de lei 16/75, diz “unificamos” e em outras publicações, sai como “unificado”.”

Marcio Carlos, 2011.

Na publicação ele revela que, o hino escrito por José Marella e composto por Ivahy Baptista Nascimento, no século XIX, somente foi oficializado em 1975 a pedido da Banda Lira Itapirense. A municipalidade institui armas em 1956 e bandeira em 1970. O texto ainda revela uma disparidade entre a letra cantada e a letra registrada quanto a conjugação do verbo UNIÃO, a primeiro sentimento do símbolo musical itapirense. A letra original registra o termo UNIFICAMOS, cantamos e está disponível nas plataformas de cifras o termo UNIFICADO.
Em matérias jornalísticas no começo dos anos 2000 o Memorialista Arlindo Bellini lembra que os Hinos Municipais tem ligação com o surgimento e difusão do Futebol, no início do século XX. Itapira tem um ritmo agradável e empolgante, letra simples e de fácil compreensão, se não foi criada para a torcida se encaixa bem nos critérios.
O início do Século XX é marcado pelo saturamento do pensamento de guerra. Por milênios os homens lutam entre si por qualquer coisa, as causas mais comuns sempre foram terras, alimentos, medicamento, mulher e rota comercial, nesta ordem. A válvula de escape é sempre a “defesa do modo de vida”. Na primeira metade do século foram guerras globais, e na segunda metade a superação dos discursos de ódio para os discursos de Paz. Assim é natural que o termo UNIÃO ganhe destaque, em oposição as separações provocadas pela violência da guerra.
No século XXI ainda é difícil para boa parte de nós entendermos que basta viver, e deixar as pessoas serem elas mesmas. Falam tanto em “tradição da família brasileira”, mas na primeira oportunidade largam nossa língua mãe para usar termos estrangeiros, em tudo… Segundo o Presidente do Brasil o EUA sempre será o melhor. Na outra ponta aumentam presídios e fecham escolas. Quem é o real inimigo do modo de vida brasileiro?! Eu trabalho para que o Brasil supere e muito esses gringos sem sal, nem açúcar… Começando pela cidade mais Linda do Brasil: Itapira. Então vamos voltar aos nossos símbolos, para que as próximas gerações possam escolher símbolos melhores para suas lojas e não copiar e colar do coleguinha loiro, di zóiozul.
Comemoramos na realidade 200 de domínio cristão. A aglomeração de pessoas dada mais de 5.000 anos. Evidências arqueológicas já comprovaram que a Mandioca tem pelo menos 22.000 anos de domesticação no norte do Brasil. Mas somente no ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1820 é que foi fundada a primeira colônia cristã de Itapira, no sudeste de São Paulo. Este ano marca a mudança do povo de Itapira para o povo da Penha. A narrativa começa com João de Moraes e Manuel Pereira autorizando a derrubada de um mato, no alto de um espigão, para dar início a construção da capela em honra a Nossa Senhora da Penha. A primeira missa se deu em 19 de março de 1821, pelos sacramentos do padre António de Araújo Ferraz,
Entre 1500 a 1800 os europeus (quase todos cristãos) já haviam dizimado quase toda a população das Américas do Sul, estimados em mais de 15 milhões de seres humanos, assim como tinha incorporado e aprimorado o escravismo por mais de 300 anos, dizimando todo o continente africano indiretamente e destruindo o futuro de bilhões de famílias pelo mundo. Até em 1888 os cristãos da Penha exageram tão feio que, se sentem obrigados a devolver a localidade ao menos o seu nome legítimo: Ytapirá.
1950 parece marcar a renovação. Ruas começam a serem pavimentadas, a cidade “pós-guerras” parece progredir. É justo que símbolos comecem a ser pensados. A História não deixa esquecer certas coisas, mas os Homens são empenhados em tentar apagar, ou desdizer, ou ainda justificar o injustificável. Então falamos Ytapirá, mas escrevemos Itapira, conforme já ensaiei no aniversário de 199 anos.
O pensamento superior-branco-cristão é doutrinação no inconsciente. Em primeira instância somos filhos de nossa própria época, é natural reproduzir um pensamento ignorante e/ou intolerante. No caso do Hino de Itapira imortalizamos o pensamento cristão para justificar o genocídio de qualquer pensamento contrário. Lembrando que os Tupi estão sempre alerta, pois se bobear na Floresta a Onça pega. Então oficialmente deveríamos cantar:

UNIFICAMOS povo sempre alerta
Pela santa glória deste torrão
Berço do sonho assim disse o poeta
Linda, linda disse um coração
Será sempre o brasão

José Marella (*? – +1951)

Pessoas notaram a questão e buscaram melhorar o termo, para ficar menos pretensioso, mas mantendo a intenção coletiva, então cantamos:

UNICADO povo sempre alerta
Pela santa glória deste torrão
(…)

adaptação popular do Hino de Itapira – posterior a 1950

Quando um pedido para rever o Hino modificando o termo, o poder local lembra de seu passado e não autoriza a mudança de algo que não encomendaram. nas razões do veto de 4 de agosto de 1975 foi registrado:

“(…) os autores foram sabidamente excelentes e ilustres em sua arte”.

Antonio Carlos Martins, 1975

Assim como na versão oficial sobre o nome de Ytapirá a gráfia é a correta, em relação ao sentimento cultural restante desses povos, o sentimento passado pela letra oficial está igualmente correto.
Que permanecemos UNIFICADOS, entendendo cada vez mais que tentar mudar/apagar o passado não resolve os problemas presentes ou do futuro. Conhecimento e sabedoria são as chaves de ouro e prata de São Pedro. Violência e ódio são chaves de outros portões.

JM 7-2-20 – T.I. 9-2-20

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