Caminhada ancestral

Didaticamente penso que os Tupi eram três grandes famílias. Os Tupinambá ocupavam em especial o litoral, os Guarani caminhavam pelo Centro-Sul e os Tapuia viviam cercados no Centro-Noroeste, considerando como ponto central o atual Distrito Federal do Brasil. Apesar de independentes, e “inimigos” milenares, possuíam base cultural e linguística comum, diplomacia e amplo comércio.
Tapuia é forasteiro, aquele que não fala nossa língua. No caso a “nossa língua” refere-se ao Tupi Antigo, no Português usa-se o termo Macro-Jê. Então temos dois grandes troncos linguísticos nativos, o Macro-Tupi e o Macro-Jê. Cada tronco tem diversas famílias, comumente chamamos de dialetos e sotaques. Também são conhecidas 19 famílias linguísticas que não se encaixam nos padrões Jê e Tupi, e algumas línguas isoladas (faladas por único grupo, sem ligação fonética externa).
Em 1500 os Tupinambá, da Bahia, conhecem Pedro Álvares e Pero Vaz, e passam a designar todo branco de Peró. Os escribas do Rei informam sobre os novos aliados, e como estavam ávidos por trocar erva-Mate por machadinhas de ferro. Com informações sobre maiores possibilidades ao Sul, os Portugueses passaram a aprender o Tupi e alianças comerciais e matrimoniais dão origens a vila de São Vicente em 1532, a administração do Porto de Santos pelos Peró em 1536 e a fundação do Colégio Jesuíta que marca a fundação de São Paulo em 1554.
Tapuia se embrenharam ainda mais mato a dentro. Peró e Guarani construíram no Sul vilas estruturadas e organizadas, na busca pelo ideal de agregar os benefícios da civilização europeia livre dos vícios. Em 1594 é publicado a obra Arte de Gramática da Língua mais Usada na Costa do Brasil, do Jesuíta José de Anchieta. Se trata do registro mais genérico e puro da língua e cultura dos povos que habitavam essas terras antes de 1500, sendo a principal base teórica para aprender Tupi Antigo atualmente. A partir de então Peró e Tupi passam a compor músicas, escrever histórias e fazer teatros misturando aspectos culturais de ambas formas de viver. É o nascimento do Brasil marcado com o surgimento e ampla utilização da Língua Geral.
Com o novo modo de vida surgem novas culturas, mas também novas doenças, o primeiro contato com a sífilis matou boa parte dos Tupi rapidamente por todo o continente. Lembrando que os Tupi eram povos seminômades, sempre em circulação, vezes por migrações sazonais, mas mais frequente para visitar parentes distantes. As reduções Jesuítas era por vezes uma chance de sobreviver livre das guerras, mudar costumes era o menor dos problemas.
Com franceses cobiçando o comércio de madeira, ao passo que Portugueses evitavam comercializar ferramentas que pudessem se tornar armas, líderes Tupinambá de toda a costa se reúnem em assembleia para firmar alianças com os franceses, contra Guarani e Portugueses, por volta de 1554. Chamamos essa organização de Confederação dos Tamoio.
O período de 1554 a 1567 da História do Brasil também é conhecido como a Guerra dos Tamoio. Guarani e Portugueses lutavam contra Tupinambá e Franceses, desde então tudo ficou ainda mais difícil. Até 1800 não restaria mais quase nenhum indivíduo Tupi ligado diretamente aos seus ancestrais, grande parte da Cultura se perdeu no tempo. Sonia Guajajara, liderança indígena e agente político do PSOL, fala da redução de 5 para 1 Tupi de 1500 aos dias atuais. Sabemos que a maior redução da população nativa foi durante o século XVIII, pelos Bandeirantes. Os Charrua, inventores do churrasco, foram dados como extintos em 1831. Após o massacre de Salsipuedes, os 4 últimos Charruas: Senaqué, Tacuavé, Vaimaca e Guyunusa; foram levados para apresentações públicas num zoológico humano em Paris, onde morreram. Atualmente no Uruguai famílias estão reivindicando alcunha e tradição cultural Charrua.
Em 1670 o Império Português reconhece as Bandeiras Paulistas como instrumento de defesa das reduções portuguesas e missões jesuítas pelo Sul das Américas, contra nativos considerados hostis (todos fora das aldeias europeias). Logo essas aldeias europeias passaram a contar com suas próprias manifestações culturais e comércio independente. O pequeno povo português conhecia os risco caso a sociedade brasileira superasse a metrópole europeia, e em 1759 os jesuítas foram expulsos do Brasil, acusados de controlar um “Estado dentro do Estado” e de insuflar os Guarani contra o domínio Português. Importante salientar que além da busca por ouro, os Bandeirantes já eram utilizadas também para escravizar e destruir brutalmente tanto aldeias quanto Quilombos. A quem diga que luta de classes não existe.
Do Século XV ao XIX a língua Tupi sofreu alterações, estabelecendo o Nhe’engatu, a fala [Nhe’en] boa [Gatu], se tornando a língua mais falada pelos habitantes das bacias Amazônicas e, especialmente, do Rio Negro. A partir de então os povos Tupi e Jê vem se reencontrando e se reconhecendo, podemos dizer que estamos vivendo uma grande reconstrução de suas bases culturais, adaptadas às novas realidades tanto no contexto urbano quanto nas aldeias, chegando nas universidades e outros continentes.
No último século demarcarmos e protegemos reservas, criamos o Parque do Xingu e a FUNAI trabalha para manter o isolamento de mais de centena de povos da Floresta Amazônica.  Manter acordos e zelar pela paz e harmonia entre os povos é uma obrigação de qualquer grande Nação que se diga civilizada. Quando a nação Sapanawa foi atacada por traficantes  peruanos, alguns indivíduos buscaram no Acre apoio Brasileiro e obtiveram. Registrando assim o primeiro contato entre indígenas e brancos sem mortes em 2014. Sobreviventes Sapanawa relatam que restaram apenas 30 dos mais de 130 guerreiros, comprometendo a sobrevivência de todos os povos isolados.
Os descendentes dos Guarani, Tupinambá e Tapuia que permaneceram em contato com os Peró se misturaram no Xingu, se espalharam novamente e tentam manter como podem suas características migratórias e aldeias para o culto religiosos coletivo, em honra aos ancestrais.
Na fala dos líderes durante as grandes festas Kuarup, no Xingu, é reafirmado a superação da violência entre indígenas, no desejo de divulgar a união dos povos e promover uma vida melhor para todos, além de honrar ancestrais comuns.

JM 7-2-20 – T.I. 16-2-20

Evidencias arqueológicas e estudos demográficos sugerem que, viviam nas Américas, Central e do Sul, algo entre 15 a 20 milhões de humanos. Cada grande Nação com suas próprias subculturas, assim havia milhares de modos de vida em comunhão com a Floresta, com culturas distintas, sem conhecer a fome. Sobre o tema sugeri-se conhecer o trabalho do Professor e Arqueólogo, Eduardo Goes Neves.

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