Confederação dos Tamoio

Tamoio, é uma palavra de origem Tupi. Queria saber colocar o “~” no “u” para escrever da forma mais correta: Tam[u~]îa; Até lá vamos escrevendo a forma aportuguesada mesmo: Tamoio. Traduzido para o português é avó, ancestral; mas não é qualquer avô, tem uma importância de liderança comunitária no termo, representa respeito e admiração a um ancião, seja da casa, do “clã”, da tribo ou importante representante da Nação.
Não vou escrever sobre o principal caminho entre o litoral e as planícies e planaltos do norte de São Paulo. Para ser mais exato: o antigo caminho Tupi que liga até hoje as cidades de Caraguatatuba com São José dos Campos. Hoje a Rodovia SP-99 é administrado pelo Grupo Queiroz Galvão. Sim a mesma dos escândalos. E ainda tem gente que acredita em pedágio. Ainda, se usa erroneamente o termo no plural: Rodovia dos Tamoios. No Tupi Antigo não existe plural, logo a grafia correta deveria ser Rodovia dos Tamoio. Como curiosidade: o termo Tupi Antigo para estrada, caminho, é o sufixo a-Pé. Tatuapé, é caminho dos tatus. Sim, temos muito do Tupi Antigo na língua Brasileira em uso.
Tamoio também é o nome de uma Nação que habitava da Baía de Guanabara ao Vale do Paraíba. A rodovia dos Tamoio é no Vale do Paraíba. Mas também não vamos falar dessa Nação, mas sim de uma organização internacional contra a colonização portuguesa que nasceu na mesma região em 1554: A Confederação dos Tamoio.
No ensaio “Caminhada Ancestral” escrevi sobre as 3 grandes Culturas conhecidas que habitavam o que chamamos hoje de Brasil: os Tupi Guarani que dominavam o interior centro-sul; os Tupinambás que dominavam o litoral; e os Tapuia, que em 1500 estavam cercados no centro-noroeste da América do Sul. Os Tupi falando derivações do tronco Macro-Tupi e os Tapuia falando derivações do tronco Macro-Jê. Lembrando que cada uma dessas 3 generalizações representa centenas de formas de viver e de falar, de beleza, de alimentação e pensar. Muitas dessas formas foram extintas antes de 1800. Hoje os indígenas brasileiros são muito mais semelhantes entre si, mesmo mantendo suas ligações com seus ancestrais a seu próprio modo.
A tradição Tupi revela que nas proximidades de Salvador, em meados de 1517, os portugueses atacaram, de surpresa, uma importante aldeia litorânea. Os Portugueses foram expulsos neste primeiro conflito. Não encontrei mais a carta para fazer uma referência mais segura, mas é fresco na minha memória o relato sobre nativos saindo do chão como fumaça, sem chance de defesa ao invasores. Documentos oficiais da coroa Portuguesa revela que a partir de 1518 inicia investidas sobre nosso território, abrindo caminho e eliminando as Nações litorâneas para início da colonização que ocorre a partir de 1530. Lembrando que mesmo vencendo as batalhas os indígenas não resistiram às doenças, e cada ataque europeu encontrava um número menor de guerreiros.
Enquanto isso outros portugueses estabeleciam comércio com os povos do Sul. Assim a rincha ancestral entre Tupi Guarani e Tupinambás foram agravadas, prejudicando ainda mais a resistência nativa contra os europeus. Afinal Tupinambás foram atacados por Portugueses enquanto que, estes se aproximavam cada vez mais dos Tupi Guarani. Esse jogo perigoso dos portugueses não contavam com a organização das nações Tupi. Somente em 1550, pelas cartas de Anchieta e Nóbrega é que o Rei de Portugal toma conhecimento da Confederação dos Tamoio, fundada por uma grande reunião de grandes lideranças, especialmente chamada e liderada pelos Tupinambás, com apoio Francês.
A dominação portuguesa de nada tinha haver com avanços tecnológicos para os povos Tupi. A ideia sempre foi dominar toda a costa para controlar todo o comércio de especiarias, alimentos, madeira e toda gama de suprimentos e água para o reabastecimento das embarcações que faziam as rotas entre Europa e a Ásia por mar. Entre os franceses havia muito interesse pela madeira, agravada pela má vontade de pagar as taxações abusivas da alfândega portuguesa. Não demorou para que os maquiados de peruca branca começarem a buscar líderes Tupinambás para acordos e contratos diretos, bem como ajuda no combate aos portugueses nos domínios Tupi.
Se entendemos que a Confederação dos Tamoio foi criada em 1554, logo em 1555 desembarca na Baía da Guanabara, o Diplomata Francês, cavaleiro da Ordem de Malta e vice-Almirante da Bretanha, Nicolas Durand de Villegagnon. Nascido em 1510 em Provins, 90 Km de Paris; falecido em 1571; lembrado como “maior marinheiro de seu tempo”. Mesmo com todas as evidências históricas e documentais apontando para que a iniciativa da Confederação foi Tupi, até hoje a narrativa oficial registra que se tratavam de povos selvagens inocentes e manipulados, caracterizando a Confederação dos Tamoio como consequência da estratégias de sedução de Villegagnon. É preciso dizer que o “feche francês” também esteve no encontro em 1554, secretamente (o que indica que não havia forças militares franceses, apenas a boa e velha diplomacia de peito aberto e cara limpa), no entanto acho que é inocência demais pensar que ele foi o principal articulador de tal movimento Tupinambá. Fato é que a França Antártica existiu de 1555 a 1570, sendo invadida e completamente destruída pelo fidalgo português Mem de Sá (1500 + 1572) após 1560. São Sebastião do Rio de Janeiro tem sua fundação registrada em 1º de Março de 1565. O famoso Estácio de Sá (1520), sobrinho de Mem, foi morto durante a Batalha de Uruçumirim pela “multidão de flechas” dos Tamoio em 1567, quando se deu a consolidação do domínio português na Baía da Guanabara. As baixas incluíram o Tamoio Aimberê junto de centenas de guerreiras Tupinambás e 5 oficiais franceses. Marcando também o fim da Confederação dos Tamoio.
A História da Confederação dos Tamoio não é simplesmente registro da força e habilidades de resistências dos povos Tupi, também é demonstração da capacidade de diálogo com as Nações europeias quando o trato era vantajoso para ambas as partes. Assim como os Jesuítas tiveram sucesso na convivências com os Guarani no Sul, na chamada de Missões ou reduções, que também foram vítimas da sede de sangue e morte da coroa portuguesa, após o queda total da resistência dos Tupinambás.
Tal História também registra a milenar rixa entre Paulistas e Cariocas, e de como a violência não traz avanços para ninguém.

JM 28-2-20 – T.I. 1-3-20

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