História por João Marquezini


“hoje em dia, a História deve proporcionar o conhecimento, mas a memória dá o significado”

– Pierre Nora, 2009 –


Desde que comecei a ler, leio sobre História da Humanidade e sua diversidade de pensamentos, saberes e fazeres. Seguia ditado pelo senso comum de que História seria simplesmente registrar de forma escrita uma situação em que fomos testemunhas.
Quando pensava em graduação, fora das ciências rurais, as opções eram filosofia, teologia, psicologia ou jornalismo. Acabei optando por História no último momento, cedendo a pressão do Eric Apolinário. Iniciamos juntos o curso na PUC de Campinas em 2012. Por isso faço questão de sempre fazer propagando do livro Inverno escarlate, pois além de ser sobre 1932, um tema que gosto muito, e ser sobre Itapira e região, que muito me interessa, é um trabalho que o Eric vem realizando desde muito antes. Não tenho parte nenhuma na produção desse livro, mas vi de perto boa parte desse processo que afetou profundamente minha vida. Sou grato por isso.
Claro que nada é de uma hora pra outra que as coisas acontecem. Ainda mais no campo das ideias e pensamentos. As revoluções ajudam, mas raras vezes dão conta de resolver tudo por si só. A faculdade de História foi uma revolução em minha vida, que ainda mostra suas consequências, tanto esperadas quanto inesperadas. Depois da História minha vida ficou mais colorida, mais festiva, mais humana.
A primeira e mais forte revolução interna, no advento do contato com a História, foi exatamente o entendimento sobre sua importância para a humanidade. Saindo do senso comum (onde a História é curiosidade) e entrando para o mundo da ciência, onde toda ação tem uma reação. Estudamos as reações para conhecer as ações. Estudamos as ações para conhecer as reações.
Se estamos preocupados com as reações no nosso corpo procuramos um médico. Pra tentar amenizar as reações sobre um mal resolvido com outra pessoa, buscamos um advogado. Quando ações e reações são na nossa sociedade, deveríamos procurar pelos profissionais das ciências sociais. Onde a História é Progenitora.
Estudiosos cosmólogos, ao longo de toda a História dos agrupamentos de homo sapiens, olham pras estrelas em busca do futuro, mas as informações são sobre o passado. É quase uma Lei Universal: para entender o presente e especular sobre o futuro de forma mais eficiente possível, somente conhecendo o passado. Isso faz da História uma disciplina verdadeiramente interdisciplinar e multifuncional. Sendo útil e eficiente em qualquer área de atuação. Fundamental para qualquer planejamento executivo estratégico, em especial os de médio e longo prazo. Mesmo em relações comerciais.
Não à toa a base de conhecimento principal de qualquer diplomacia é a História. Pois ela nos ensina, antes de qualquer coisa, a respeitar outros povos, outros saberes, outras Histórias. E isso é fundamental num mundo cada vez menor.
Ingressei na faculdade com o único objetivo de ter um diploma de ensino superior. Antes do fim do primeiro semestre já não conseguia me enxergar fora da História. O ofício de historiador é limitado no Brasil. Ou se ganha a vida com outra coisa, ou encara salas de aulas.
A realidade sobre ensino de História é triste. Além de poucas aulas e baixa valorização social, a disciplina está sendo usada de bode expiatório de um tirano, talvez tenham entendido que a História é a única coisa capaz de abrir o terceiro olho dos homo sapiens. Cortes nesta área de estudo, nunca foram novidade, porém agora é numa escala muito mais perigosa.
Com o agravante de que, Infelizmente, no Brasil não se investe de forma satisfatória nas faculdades das humanidades e nossas relações sociais, resultando em uma grande competitividade entre os acadêmicos. O que provoca e agrava as disputas de egos. Nisso, incontáveis mentes brilhantes acabam ficando de fora dos debates. O que limita ainda mais o nosso desenvolvimento. Como não gosto de perder tempo, não tenho menor desejo de entrar nessa celeuma. Preferi correr por fora, a minha própria maneira, mas sem deixar os métodos acadêmicos que tanto trabalhei durante a faculdade.
Estamos entrando numa era virtual. A internet é uma forma muito eficaz para a concretização da liberdade tão desejada pelos homens. É um contra senso cercear liberdades individuais. Estamos expostos demais, até onde se tem registro, precisamos aprender a lidar com a liberdade, e entender os nossos próprios limites por nós mesmo. Não impedir, proibir e menosprezar. Mas sim socializar, buscar compreender e estar disposto a colaborar com a fornada do outro.
Todas as ciência, em tese, foram desenvolvidas a partir da busca pelo entendendimento e melhoramento do sistema que vivemos (em larga escala e longo prazo) o Capitalismo.
Me considero parte dos estudiosos que entenderam que o sistema capitalista não dá conta de resolver nossos problemas. Pior, ele vem prejudicando nossa condição de vida.
Já estamos há mais de 200 anos investindo recursos de todas as esferas, na busca por melhorias do capitalismo, e o resultado todo mundo já conhece: o de cima sobe, e o de baixo desce. Como diz o diz o sábio cancioneiro popular brasileiro.
Assim, não desejo perder mais tempo com um sistema falido, decadente e que só contribui para que os homo sapiens adoeçam.
Também não desejo contribuir com um sistema de exclusividades. Desejo viver numa sociedade de oportunidades.
Logo meus estudos buscam explicar relações e práticas sociais que possibilitem a compreensão da vida em um sistema que priorize o que há de melhor na humanidade, em harmonia com o ecossistema de sustentação de vida do nosso planeta.
Durante a faculdade, meu maior desejo era ser professor, cai de cabeça no ensino. Quando estudamos problemas de aprendizagem, compreendi que sou disléxico. Desde de então, apreendendo a lidar com meus limites com a leitura e a escrita, meu rendimento acadêmico subiu. Deixei o óculos de lado e nunca mais tive dor de cabeça durante em decorrência de leitura. Entendi também que minhas limitações com a escrita constitui uma barreira imensa para meu avanço entre intelectuais. Afinal nenhum brasileiro que se preze leva a sério um estudioso que comete erros infantis de gramática. Poucos acreditam que tais erros são um limite neurobiológico, sem um laudo especializado.
Quando a ciência não entende, não conhece e não tem como transformar em número e regra, a lógica acadêmica nos obriga a descartar. Ou ignorar. Viramos café com leite.
De toda forma, não me sinto tentado a provar nada a ninguém. Então resolvi correr por fora. Quem sabe inaugurar a Escola Disléxica de História do Brasil, abrindo horizontes para mais de 5% dos brasileiros que são afetados e menosprezados pela sua forma de pensar mais objetiva e direta.
Inicialmente a ideia para o marquezini.com seria como uma vitrine para esses estudos. Uma janela para uma forma de pensar a História que não nega a academia, mas entendo como uma forma de suplementação. Uma forma de produzir algum conhecimento fora da academia.
Depois de 6 meses de trabalho na forma de apresentar tais conteúdos e visão de mundo, me fizeram extrapolar a História. Buscando algo mais próximo do cotidiano e vivência das pessoas,  sem negar ou esconder nenhum ponto de vista, que considero importante, sobre a vida neste mundo.
É importante também salientar que minha educação de base foi envolta aos contos e causos.
Esses contos e causos fazem parte do que chamamos de História Oral. Se a arte vinga a vida. Os contos e causos nos preparam para a vida e facilitam a compreensão da arte.Aqui chegamos ao debate fundamental de grande parte das questões que trabalho: História e Memória. A grande aliança entre o Espírito da História vivo com a disciplina morta.

JM 26-6-19 / T.I. 7-7-19