Y-ita-pirá 1.9

É preciso entender que nenhum vivente pode afirmar, empiricamente, sobre as corretas pronúncias e/ou traduções de palavras e conceitos que vagam pela História da Humanidade. Já é bastante complexo trabalhar com línguas vivas: basta assistir um filme estrangeiro legendado e depois dublado para notar como o uso das palavras podem mudar para contar uma mesma história.
No cinema como no Teatro, temos estudos profundos sobre cada sentimento encenado: cores, cenários, roupas, palavras, sons, objetos, etc. Tudo para passar ao admirável público um determinado aspecto da vivência humana. Mesmo assim, nem todos conseguem entender a mensagem. A escrita é uma forma limitada de arquivar sentimentos humanos, como diz o ditado romântico: “não existem palavras suficientes para descrever o que se senti”. Do mesmo modo é impossível impedir o ser humano de tentar expressar esses sentimentos em palavras.
Indícios sugerem que códigos escritos já haviam sido elaborados em algumas culturas Tupi, no entanto o volume de informações, sobreviventes aos últimos 500 anos de extermínio das culturas nativas brasileiras, é tão limitado que torna inviável a tentativa cientificista de reconstrução fiel das línguas faladas ou escritas. Deixando muitas lacunas abertas para que estudiosos e entusiastas se divirtam na imensidão das hipóteses. Lembrando que existem os regionalismos.
Falamos em extermínio não somente pelos atentados diretos contra a vida dos cidadãos indígenas brasileiros, mas especialmente pela falta de instrumentos e aparelhos, públicos ou privados, para auxiliar a manutenção das culturas nativas. Havendo, aparentemente, um empenho maior pelas causas africanas, o nativo vai de carona. Nem a ciência é exceção a essa regra. O que temos são trabalhos isolados de alguns dedicados estudiosos e entusiasta, É preciso muita sensibilidade para tratar de tal assunto, ainda mais quando o interlocutor, como neste caso, é branco e com quase nenhuma vivência nas culturas Tupi. Porém o acesso a informação, hoje, é muito maior que há 20 ou 30 anos, o que pode significar que temos a disposição para estudos uma reconstrução muito mais elaborada sobre o teria sido o Tupi Antigo em 2007 do que entre 1700 à 1900.
Já encontrei algumas formas diversas sobre a tradução de Itapira. A mais curiosa seria que o termo remete a grande presença de Tapir [Anta], o que também teria ligação com a forma de vestimentas dos habitantes, tendo como principal matéria prima o couro de Tapira [animal da floresta] e de Kapi’wara [comedor de capim]. Essa entre outras guardo na memórias das curiosidades, não temos informação nenhuma sobre a veracidade de tais especulações. Já a versão oficial amplamente divulgada desde 1902 pelo Diccionário Geográphico da Provincia de São Paulo, registra o seguinte:

“De yta, ou mesmo ita, ‘pedra, morro’, apir, ‘ponta’, com o accrescimo de a (breve), por acabar em consoante, segundo a lição dos grammaticos: ‘ponta de pedra’ ou ‘pedra pontiaguda’, dando a idéa de ‘penha, penhasco’ eis o significado exacto do nome Ita-’pir-a”

João Mendes de Almeida, 1902

Penso ser relevante registrar que, na cidade de Itapira não existe um exemplar público para livre consulta do Diccionário Geográphico da Provincia de São Paulo. Somente tive acesso a integral a obra pelo excelente serviço prestado virtualmente pelas bibliotecas públicas da USP. Também julgo ser importante registrar que em alguns lugares a citação falha até com o nome do autor. João Mendes de Almeida, maranhense conservador e abolicionista, ficou conhecido como jurista, jornalista e político. Foi dele a Lei do Ventre Livre.
Imaginem só: Em 11 fevereiro de 1888, mais de 200 pessoas se reúnem para assassinar violentamente o policial abolicionista Joaquim Firmino (dias antes tinha sido exonerado do cargo de Delegado), na frente da esposa e de suas filhas. Sobrenomes importantes de nossa História eram os mandantes, em especial um escravagista Americano-Sulista refugiado. Todos os jornais do Brasil escreveram sobre o “crime da Penha”. Em maio do mesmo ano a abolição foi assinada. Resultado veio um pouco mais tarde:

“(…) A intendência municipal desta cidade da Penha do Rio do Peixe, em sua sessão de hoje, resolveo por votação unânime, representar-vos no sentido de ser mudado o nome que esta cidade conserva, digo cidade e município tem conservado até hoje, pelo de cidade e município de – ITAPIRA – satisfazendo assim, o desejo de grande parte de sua população. Esta indicação tem por fim apagar qualquer sombra que o passado possa projectar sobre o futuro desta Cidade, riscando do quadro das cidades paulistas um nome execrado por mais de um título. Saúde e fraternidade. Paço municipal da Penha, em sessão de Intendência, 8 de fevereiro de 1890”

Câmara Municipal da Penha do Rio do Peixe, pg 85

Revelador que a municipalidade, sem nunca ter exaltado qualquer aspecto da cultura nativa local, e querendo esconder seus aspectos mais vis, desconsidere o “Y” desde o início, mas não exitou em tomar como oficial a versão cristianizada de um conservador abolicionista, vivente entre Jundiaí e Maranhão, desconsiderando também tudo o que já estava estabelecido, inclusive (ao que se registra) contra a sabedoria popular local itapirense.
O “Y” Tupi, é um mesmo do Russo e do Romeno, seu som inicia como “u” com a boca fechada, então incorpora e finaliza em “i”, com a característica presença do som de “~” como consoante. Esse é um dos sons da criação, uma das palavras sagradas para os nativos, pois representa o conceito de Água, como fonte de toda Vida. Os portugueses contam que o espírito masculino protetor dos mares, Ypupîara (y, água; pupé, dentro; e ygûara, morador), foi morto em 1564 no litoral da Capitania de São Vicente. Yîara, Senhora das Águas, ainda vive no fundos dos rios da bacia Amazônica.
Licença para um parênteses linguístico. O Português tem fortes bases sobre a escrita, os acentos indicam a forma correta da pronúncia e os radicais tem seu valor somente na gramática. A conjugação de verbo é uma variação das antigas declinações do Latim. O No entanto Tupi está mais próximo do Alemão, onde a fala ainda é mais valorizada que a escrita, motivando não a invenção de palavras, mas a junção delas para dar sentido ao que se está nomeando. Na prática: Latinos dão nomes de santos, ou qualquer coisa que se goste ou se deseje homenagear; Germânicos e Tupi buscam explicar a coisa nomeada, latinos lhe dizem para ler um livro para entender. Exemplo: Podemos chegar em São Paulo (Apóstolo de Cristo) pelo Tietê (t-Y + eté = Rio Verdadeiro / Rio Genuíno), num Ygarusu (Y-gara + usu = Canoa grande), mas também podemos ir de Flugzeug (do alemão Flug de voo e Zeug de coisa = coisa que voa = avião) ou de Volkswagen (Volks + Wagen = automóvel do povo. PS. Uma variação falada de Volk é Folk, e Lore é ensinar; logo Folclore seria o ensinamento popular).
Mesmo que exagerando no uso do “Y”, o Estado cumpre seu papel na manutenção da memória cultural de seu Povo independe da fé professante. Assim a memória Tupi é resguardada por força da Lei dos brancos:

“O Governador do Estado, atendendo ao que representou o conselho de intendência da cidade da Penha do Rio do Peixe, sobre a conveniência de substituir a denominação daquella cidade pela de Ytapyra, nome com que os indígenas designavam o rio que banha aquella povoação, por ser pedre­goso e abundante de peixe; Decreta:
Artigo único. A cidade de Penha do Rio do Peixe será denominada cidade de Ytapyra ; revogadas as disposições em contrário.”

Decreto Estadual n. 40, de 1 de Abril de 1890

Rumo ao Bicentenário fica registrado minha homenagem ao Povo esquecido que habitava as margens do Rio das Pedras e dos Peixes, Ytapirá.

JM 18-10-19 – T.I. 27-10-19

Y-ita-pirá

De fato somos filhos do inusitado. Conhecida no Mundo pelo pelo maior complexo de saúde mental da América Latina e também pelo refino de psicoativo, Itapira, tenta ser lembrada como: A Linda; pela sua real-oficial formosura geográfica.
Nunca espere algo de um itapirense, anãoser reclamação de suas próprias origens. Nada é mais brasileiro do que o Itapirense. Juro! E reparem, tem Itapirense em tudo quê lugar, em todas as esferas. Temos até suplente de Senador pelo Estado do Tocantins (Ogari Pacheco, fundador do laboratório Cristália [farmoquimica], terceiro candidato mais rico do Brasil em 2018), assim como somos os maiores fornecedores dos melhores garçons do Brasil para o Mundo.
O ser humano, em especial o Paulista, tem muita dificuldade de assumir a influência social em sua personalidade, entende sua cultura sertanista e interiorana como essência vital de todos os seres humanos. Em geral é mais fácil entender a influência social sobre o outro, no entanto mudanças profundas só ocorrem quando olhamos para o nosso próprio eu. O autoconhecimento estabelece o que se é, assim como o que gostariamos de ser, tanto na esfera ideal individual quanto na coletiva, essa é a nova ordem social. Sem obscuridades: Se antes essa motivação era colocada externamente: pela Igreja, pelo Governo e/ou pela Família e Comunidade; Hoje somos todos sumos-sacerdotes aos olhos dos Deuses; Como Reis, podemos escolher nossos representantes ideológicos políticos; A democratização do código escrito possibilitou melhor organização quanto colegas de trabalho, assim as tecnologias possibilitam uma vida muito mais confortável e fluida. Assim a razão de se viver deixa de ser colocada como regras, mandamentos e doutrinas, a serem seguidas para que a vida faça algum sentido no final, e passam a ser uma compilação dos desejos individuais a medida que ocorre a socialização de motivações internas em comuns entre pessoas não necessariamente nascidas em um mesmo local.
O processo do autoconhecimento não pode ser mais ser revertido. A investida da Extrema-Direita só desgasta ainda mais o processo de entrada dos Brasileiro no Século XXI. A bem da verdade, derrubamos todos os muros fronteiriços em 1989, não havendo mais soberania nacional fora de alguns poucos discursos ideológicos. Todas as cidades do Século XXI serão cosmopolitas. No entanto as fronteiras sociais são algo mais complexo, e aos meus olhos, as regionalidades devem ser exaltadas pois ela não se limita aos seus visitantes.
Pois bem, voltamos ao nome Itapira. Sua tradução mais elaborada, sendo o primeiro registro conhecido sobre, foi no Diccionario Geographico da Provincia de São Paulo, um compêndio geossocial Paulista.

Itápyra – Nome restituido á cidade da Penha do Rio do Peixe, por acto do Governo, n. 40 de 1º de abril de 1890, sob o fundamento de que “os indígenas assim designavam o rio que banha aquella povoação, por ser pedregoso e abundante de peixe”.
(…), Muito sábios na formação dos nomes locaes, pois que estes deveriam designar os carateristicos physicos da cousa nomeada, e não eram definitivamente acceitos senão após deliberação em assembléas (…), faziam os indígenas admiravelmente aquelle jogo linguístico, quando tinham de dar nomes a rios, lagôas, montes e outros logares (…)”

João Mendes de Almeida, 1902

Almeida tenta, a todo custo, desvincular o “peixe” do nome Tupi de Ytapirá. Chegando a propor que a grafia, numa visão linguística brasílica (como se costumava chamar as culturas tupi), mais correta seria: Itapirû – fundo pedregoso e escuro. No final, se revela por completo:

“(…) com o nome Ytapira, em referencia ao morro entre o mesmo corrego e o rio, onde foi edificada a matriz.”

João Mendes de Almeida, 1902

Eduardo de Almeida Navarro, hoje o maior especialista em Tupi Antigo, é catedrático linguístico da USP. Em 2007 lançou o Dicionário de Tupi Antigo: A língua indígena clássica do Brasil. Uma verdadeira obra prima, grandiosa e linda, extrapolando os limites da tradução literal, possibilita submersão na cultura estudada. No final ele se dedica aos topônimos e antropônimos, pois também reconhece a grandeza dos Tupi em nomear coisas. Deixa claro que não se pretende ser uma referência na tradução dessas nomenclaturas Tupi, mas para o caso de Itapira é uma das poucas fontes que temos livre acesso. Assim transmiti simplesmente: “Itapira (SP). De itá + byr + a: pedra erguida”; Proponho ao leitor parar agora e buscar na internet: Pico do Itabira. Todavia não me cabe colocar a prova sobre a relação paisagística com o Pico da Forquilha (Jacutinga, MG), cuja estética tenho me esbaldado nos desenhos e ilustrações. Já se considerarmos a História do Pico do Cauê, em Itabira, MG, teremos tristes reflexões sobre identidade territorial, capital e ambiente, além da questão paisagística.

Pico do Itabira
Pico do Cauê

“Campo de prata com uma montanha de azul carregada de uma flor de lis, de prata. Em contra-chefe, uma faixa de três ondas de prata, carregada de um peixe em vermelho.”

Lei Municipal de Itapira, n. 274, de 11-10-1956

Em 1970 o desenho das armas de Itapira foi questionado e revisado. A disputa entre os sábios heráldicos: Benedtio Calixto e Enzo Silveira; gerou carta aberta em jornais de ampla circulação estadual e nacional (lembrança sem revisão documental). Mas a essência sofre poucas ou nenhuma alteração: Branco, Azul e vermelho, são nossas cores. O peixe é nossa raiz renegada, a montanha azul nosso ideal, fora de nossas fronteiras atuais, fazendo dos rios nossos caminhos.
Jamais entenderei a negação ao Peixe quando este fora o símbolo primeiro do cristianismo. Seria o medo da cultura Tupi maior que a crença na doutrina religiosa cristã? Jamais saberemos. Fato é que, espiritualidades estão ligadas às características primordiais humanas, assim como Cristo repartiu o Pão Nosso, multiplicou também os Peixes Nossos, e os Vinhos Nossos de cada Dia!
Para colocar um ponto final sobre a questão do Peixe de Itapira, volto ao professor Navarro, cujo prefácio do Dicionário de Tupi é uma reflexão de Ariano Suassuna sobre a influência Tupi na cultura Brasileira. Leiam essa obra, é obrigatório para todos brasileiro que se deseja ser reconhecido pela sabedoria. Como significação do termo pira, ele apresenta duas versões: a primeira ligada a pipoca = pir [pele] + pok [estourar], logo pira seria a pele, como a pele do milho que estoura.

pirá (s) – peixe (…). NOTA – Daí se originam inúmeros nomes geográficos (v. Rel. Top. e Antrop. no final) e substantivos comuns no P.B. (…)

Eduardo Navarro, 2007

Não devemos nutrir esperanças que o Professor Navarro se debruce sobre tema para nos informar se cometeu um equívoco ou para informar sobre a fonte utilizada para traduzir Ytapirá. A confusão fonética de “p” por “b” não fora nem mencionada por Almeida em 1902, embora ele questione todas as outras possibilidades de confusão linguística com o termo. Mas também Já li em muitos outros lugares essa forma de traduzir Itapira. Porém as de Almeida e Navarro são as que considero de maior peso quanto ao estudo da língua Tupi em geral. No entanto, para ambos o termo Tupi Ytapirá foge de todas as regras que eles mesmo apresentam como base para o início lógico do raciocínio e reflexão sobre o tema.
Ainda motivado pela comemoração dos 199 de anos de fundação de Itapira, em 24 de outubro de 2019, no próximo ensaio escreverei sobre o “Y”, a marca do Rio das Pedras e dos Peixes.

JM 18-10-19 – T.I. 20-10-19

Partido Brasil

Há 200 anos o Partido Brasil só aceitava homem acima dos 25 anos de idade e com comprovada renda anual de 100 mil Réis para votar no seu representante paroquial, tipo de vereador. Já para votar num Deputado e num Senador era preciso comprovar renda anual de 200 mil Réis. Os cidadãos de paróquias elegeram seus representantes somente, os eleitos é que podiam votar para Deputado e Senador. Os candidatos à Deputado precisavam comprovar renda anual mínima de 400 mil Réis e os candidatos ao Senado de 800 mil Réis. Nada disso impedia o Imperador de destituir Deputados e Senadores, e nomear outros em seu lugar. O Império é coisa do Imperador. A República é Coisa Pública. O Poder Moderador de uma república se efetiva nas eleições, como deixa bem claro texto do parágrafo único do Artigo 1º da Nossa Constituição Federal em vigor [em tese]:

“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”

Dos Princípios Fundamentais do Brasil – C.F. 1988

Até 1800 toda resistência aos costumes e Leis Portuguesas, no Brasil, eram tratadas como traição. No período regencial [1831-1840], o Partido Brasil, abandonado pela corte portuguesa e procuradora de D. Pedro II, ainda muito novo para governar soberano, acabou aceitando agremiações políticas internas. Assim surgem os Saquaremas e os Lusíadas; sendo saquaremas os membros do Partido Conservador e os Lusíadas os membros do Partido Liberal. Não eram os únicos partidos, havia também o partido que pedia a volta de Dom Pedro I, que acabou quando o Imperador voltou para Portugal em 1831. A lógica partidária era outra, pois a política num Estado Monarquista Absolutista é muito diferente do Estado Republicano Representativo, que se pretende democrático.
Dom Pedro II retardar o progresso da republicanização do Partido Brasil, tanto quando desmonta gabinetes e ministérios inteiros, quanto pela forma como conduziu o progresso da Nação Brasileira Século XX adentro, reduzindo a distância social e comercial com as nações europeias modernas. Essa segunda face do Imperador, o mais velho que o pai, ainda é engrandecida e vangloriada, sendo a principal base retórica das partes sociais monárquicas. Existem 3 grupos regressivos aguardando o TSE reconhece-los como Partidos Políticos de fato. Partes militares também desejam o reconhecimento dentro do Partido Brasil, nem todas alinhadas aos pensamentos conservadores, vale lembrar.
Na narrativa oral, Dom Pedro II esteve ao menos uma vez em Itapira, teria vindo inaugurar linhas férreas na região, e na ocasião teria se deparado com parte dos moradores declaradamente republicanos, havendo até mesmo uma residência ostentando hasteada bandeira republicana durante toda a visita imperial. O ideal republicano tomou a nação facilmente, se firmando como a maior parte, porém os provinciais de São Paulo foram os primeiros a admiti-lo abertamente e oficialmente: No dia 13 de abril de 1873, na Conferência de Itu foi fundado o Partido Republicano Paulista – PRP, dado na época como progressista. Partidos republicanos eram ensaiados por todos os lados, São Paulo foi o caso mais próximo dos grandes marcos históricos.
Na corrida presidencial de 1930: Júlio Prestes, do PRP, teria vencido Getúlio Vargas, gaúcho apoiado pelos paulistas do Partido Democrático – PD. Sob suspeitas de fraude eleitoral os militares amarraram os cavalos no obelisco no Rio de Janeiro, enquanto em São Paulo a redação do jornal Correio Paulistano, órgão oficial do PRP, foi invadida e destruída pelos partidários Varguistas. Vargas estava disposto a tudo para unificar o Partido Brasil, manteve até contato com escritórios nazistas.
Em 1932 PRP e PD se unem contra a tirania de Vargas, o que resulta na famigerada Resolução de 1932. Vargas vence a guerra, mas acaba por convocar a constituinte: principal reivindicação das partes paulistas. Em 1933 é chamada a constituinte e eleições são convocadas. A unidade paulista que gerou a guerra civil se mantém para ocupar esferas de poder no Partido Brasil, assim as partes republicanas, democráticas e outras, formam a Chapa Única Por São Paulo. Elegem também a educadora, médica, escritora e política: Carlota Pereira de Queirós; primeira mulher eleita, na primeira eleição em que mulheres puderam votar no Brasil, e única mulher assinar a Constituição de 1934 junto de 252 Deputados homens.
Durante a ditadura de Vargas a maçonaria também foi perseguida pela fobia de partidos políticos. O Grande Oriente do Brasil, foi fechado por mais de 2 anos. Penso que é válido ressaltar que a perseguição aos partidos políticos não se limitam às disputas institucionalizadas, as partes políticas não são isoladas de outras partes.
Depois de 1945, com a democratização do Brasil, as partes voltam a se conversar e se organizar. Uma nova geração de partidos políticos se inicia, até outro golpe militar em 1964. Ao que parece os militares tem uma limitação em lidar com mais de 2 partes e impõem que todos os brasileiros se limitem igualmente. 20 anos depois veio a redemocratização e com ela atualmente temos 33 partes políticas oficializadas no Brasil. Não entraremos na qualificação de cada, este é um trabalho para o próprio eleitor, dentro de sua realidade e idealização social do que espera que seja o Partido Brasil.
O PSOL hoje representa o progresso. Nascendo da negação do poder pelo poder, para se dedicar a construir uma caminhada política diferenciada. Antes mesmo de 2003 Intelectuais da base do Partido dos Trabalhadores – PT já estavam descontentes com o rumos do Partido Brasil, o estopim foi a expulsão dos deputados João Fontes e João Batista Babá, da deputada Luciana Genro e da senadora Heloísa Helena por votarem contra a orientação da legenda na reforma da previdência, realizada no primeiro ano do governo Lula, que retirava direitos dos servidores públicos. Assim surge a parte em pró o Socialismo e a Liberdade do Partido Brasil. Desde então é o partido que mais cresce em representação nas Câmaras e em número de filiados. Em 2018 a legenda contava com 6 parlamentares, em janeiro de 2019 tomaram posse 10 Deputados eleitos representantes das partes das esquerdas pragmáticas dos Brasis. De 2016 para 2017 o número de filiados cresceu 20%.
Marcelo Freixo, Deputado Federal (342.491 votos, segundo mais votado no Rio de Janeiro em 2018), uma das vozes mais escutadas do PSOL, comentou sobre a unificação das frentes progressistas:

“A gente vive um momento de reconstrução: qual esquerda a sociedade vai enxergar? Porque precisa enxergar o diferente. Não sei se esse é o momento de unificar todo mundo, não.”

Marcelo Freixo, PSOL/RJ, 2017

A união é a utopia máxima do ser humano. Se posicionar contra qualquer discurso que promova a união dos homens é mal visto pela sociedade, no entanto a realidade é mais complexa. Impossível de não referenciar aqui a filosofia Tupi:

“As coisas em sua totalidade são uma. E, para nós, que não havíamos desejado isso, elas são más.”

Paje Mbya-Guarani, 1975 – in Pierre Clastres, 1990

Perceba que se por um lado o Partido Brasil deseja representar e agremiar uma totalidade de pensamentos e ações sociais e políticas, transmitindo uma visão de unidade nacional, nenhum indivíduo se sente totalmente representado por um único ideal, seja político ou não. Como parte da existência, a plenitude política jamais ocorre no isolamento, na imposição de uma hegemonia, como coisa pronta e acabada. Mas sim na interação com outros seres e com o ambiente, sempre como um processo, uma construção social, sem desconsiderar o indivíduo. Essa pluralidade do existir é fator primordial da política. É altamente aconselhável que se tenha cuidado de buscar saber se o isolamento do agente político se dá pelo desgosto com as instituições partidárias de fato ou para obscurecer sua real parte política. O presidente, que já passou por 8 partidos políticos, possui questões duvidosas em todos. Difícil julgar quem queima mais quem.

JM 10-10-19 – T.I. 13-10-19

Sobre 1820: contextualizando o local

“(…) o verde da relva, tão grato à vista, e os dos bosques, de coloração mais carregada. Ficamos a imaginar se esses capões de mato não são os restos da floresta que encontramos perto de Mogí-Mirim, e se a região não foi outrora coberta de árvores até São Paulo. (..) talvez, qualquer amante da natureza, terá saudades das brilhantes flores dos campos, da majestade das florestas virgens, dos cipós enlaçados em festões pelas árvores e da imponente voz dos desertos.”

Auguste de Saint-Hilaire (*1779 +1853)

Se trata de trecho das notas do botânico francês, Auguste de Saint-Hilaire, sobre sua vivência de 6 anos no Brasil entre os anos de 1816 a 1822. Ele descreve flores e florações, as benfeitorias, o cotidiano, os costumes e modos, as pessoas, alegrias e mazelas, entre outros aspectos que nos auxiliam a entender melhor nossas origens, parte do que somos ainda hoje. O quase aventureiro e botânico caminhou de Franca para Mogi Mirim e de Mogi Mirim para Jundiaí em 1819; Em outubro de 1820 foi derrubado mato no bairro dos Macucos, para que o povo ali fixasse capela em louvor a Nosso Senhora da Penha, marcando assim a fundação da Itapira que conhecemos hoje.
Ponto estratégico para expansão marítima dos povos primitivos europeus, foram os portugueses os primeiros a conclamar direito sobre essa parte do Novo Mundo. Pedro Álvares Cabral fez uma parada, instalou um marco de pedra no litoral norte do Brasil, representando a posse portuguesa (serviço de 3 dias), chancelando assim a primeira grilagem de terras do Brasil, e foi-se. De 1800 a 1820, em Mogi Mirim, 2 portugueses que não assinavam o nome, registram escrituras de doações de terras tupi aos imigrantes europeus: João Gonçalves de Moraes e Manoel Pereira.
Em 1532 fundaram o porto de São Vicente, somente em 1546 os portugueses conseguem se instalar no porto vizinho de melhor acesso às rotas de comércio continentais, assim é fundada Santos. A serra foi vencida pouco depois, fundando São Paulo em 1554. A partir de então, as principais rotas que cruzavam o interior do centro-sul da América do Sul passaram a ter cada vez mais influência do Império Português. Alegando ignorância sobre os limites acordados no Tratado de Tordesilhas, o maior empenho para colonizar o Brasil foi a coroa Portuguesa instigando paulistas mata adentro, seja por meio de riquezas/títulos/fama ou por meio do rigor da Lei.
As melhores mentes e mais avançadas tecnologias navais, incluindo a construção de navios e métodos de navegação, passaram pelos cais de Lisboa. De lá partiram inúmeras excursões, de todo tipo: Científicas, exploratórias, comerciais e bélicas; Logo em 1580 conselheiros da corte já comentavam sobre os benefícios logísticos, dada a geografia dos caminhos para a Índia por mar, com a possível transferência da capital metropolitana para a América do Sul. No entanto somente em 29 de novembro de 1807, “incentivados” pelas força napoleônicas, mais de 15.000 Portugueses deixaram lisboa rumo a Salvador. As 8 Naus, 3 Fragatas, 3 Briques e 2 Escunas, também carregavam, entre outras coisas do dia-a-dia do Porto, cerca de 60.000 livros que formavam a biblioteca real. Fazendo do Brasil o caso isolado de colônia que foi elevada a metrópole; inversão metropolitana que fala. Iniciando assim a História do Reino do Brasil. Quando se dá a Independência em 1822, busca-se equiparar administrativamente, nasce assim o Império do Brasil.
Desde 1500 para manter o controle ultramarino durante o que chamamos de colonização, a coroa portuguesa manteve discrição sobre aspectos naturais, geográficos, sociais e culturais do Novo Mundo. Em teoria, os portos do Brasil permaneceram chegados aos estrangeiros, correspondências e impressa só existam em vias oficiais da coroa portuguesa. Somente em 8 de março de 1808, com a chegada da corte, na nova capital do Império Português, Rio de Janeiro (fundada em 1565), é que toda gama de pessoas puderam desembarcar e embarcar nos nossos portos brasileiros legalmente.
A Torre do Tombo, principal arquivo público de Portugal, com atividade iniciada em 1378, sofreu muito nestes séculos: terremotos, guerras, incêndios, mudança de endereço, mudança de prédio, entre outras coisas do cotidiano da nossa existência que levam a perda e também a melhoria da condição de guarda, de documentos históricos. Um rascunho qualquer pode mudar a compreensão sobre nossos antepassados, por isso historiadores, antropólogos, cientistas sociais, economistas, geógrafos, linguistas, e toda gama de estudiosos, do mundo todo, ainda se acotovelam para passar algumas horas de posse de alguns documentos arquivados na Torre do Tombo. No entanto para leituras mais aprazíveis recomenda-se obras que registraram e apresentaram o Brasil deixando claros seus interesses e limites. E assim que podemos ter um breve vislumbre como seria a vida na nossa região no início do Século XIX.
É importante salientar que colonia, reino, império, república, etc, são termos que compreendem a visão da História Política Europeia. Os Guarani ainda se entendem como uma grande nação, vivem em diversas regiões entre o litoral atlântico e a cordilheira dos Andes, chamamos esses territórios de Estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Tetã Paraguái [nome oficial, em Guarani, do país vizinho]. Com mais de 5000 anos de História em 1500 já mantinham relações diplomáticas e rotas que ligavam São Paulo a toda América.
Quando os nativos, Tupi, compreenderam que as parcerias europeias eram de mão única, doenças europeias já haviam diminuído significativamente suas forças militares para resistência aos avanços da pólvora e do ferro forjado. Estudos recentes sugerem que em 1500 havia mais de 15 milhões de habitantes, espalhados por toda a América do Sul, e menos de 8 milhões na Europa. Teriam confundido a baixa imunidades dos nativos frente às mazelas europeias como preguiça?
Relendo Saint-Hilaire após ter uma breve noção dos recentes estudos arqueológicos amazônicos de Eduardo Neves, além de outros profissionais cujos trabalhos são complementares ao do recém admitido como Professor em Harvard, notamos que o botânico francês compreendeu que as florestas viventes em 1820 já eram apenas uma parcela do que fora antes. Segundo Neves, as Florestas Amazônicas e Atlânticas eram um elaborado sistema de manutenção de vida, onde não havia escassez de alimentos. Resultado de séculos de cultivo, plantio, seleção e cruzamentos genéticos de plantas e animais. Escavações de Neves e equipe, comprovaram a domesticação da mandioca em Roraima há mais de 22000 anos, e outros dados apontam para que cerca de 80% das plantas que conhecemos da Amazônia sofreu intervenção humana, seja genética ou plantio.
Sobre a personalidade do paulista de 1820 Saint-Hilaire escreve:

“Desde esse momento os paulistas constituíram, quasi sempre, um povo submisso e fiel, sem perda, entretanto, de seu gosto pelas aventuras e correrias longínquas, em consequência das quais não cessaram de fazer descobertas, até que não houve mais nada a descobrir.”

Auguste de Saint-Hilaire (*1779 +1853)

Reforçando aspectos do trato bruto e arrogância da miscigenação entre brancos, nativos e negros que forma a base identitária do povo paulista. O estereótipo do fronteiriço: sujeito que busca a vida entre duas culturas, geralmente habitando fronteiras, se adaptando e criando uma nova cultura. Assim os Paulistas são dotados do individualismo europeu e a vontade de se movimentar do tupi. Outros autores revelam a dificuldade que os representantes da Igreja e dos Reis tinham de localizar as famílias paulistas que, não habitavam a mesma casa e território por mais que 5 anos, construindo a próxima casa mais longe para quem vem da capital. Os vizinhos também se mudavam e pouco informação circulava para estrangeiros. Em diversas situações o francês reclama, e muito, e com razão, da falta de “hospitalidade” dos paulistas, sempre em contraposição aos mineiros e goianos, dados como mais gentis, organizados e limpos.

JM 2-10-19 – T.I. 6-10-19

Sem Papel

Antigos costumes passaram a ser vigiados, alguns até passaram a ser crimes. Como exemplo podemos citar que há menos de um século era aceitável socialmente submeter meninas de 13 anos de idade as núpcias mesmo a contragosto. Além de garantir a infância das brasileiras o atual Estado brasileiro tem artifícios legais de combate a violência doméstica contra mulheres.
Na agricultura vemos os agrotóxicos como centro do debate entre conservadores e progressistas. Os progressistas, responsáveis por garantir finalmente uma mínima igualdade legal para as mulheres, são os mesmo que alertam sobre como a indústria do alimento vem colocando cada vez mais veneno em nossa comida. O mercado criado e gerenciado por esses executivos megalomaníacos atrapalham a balança comercial dos produtores independentes e locais. O desmonte do Serviço Público vem agravando cada vez mais a crise no campo brasileiro. Mais uma vez na História do Brasil, os trabalhadores estão e irão permanecer pagando o pato. Cria da disputa do poder político entre PSDB e PT, que jamais souberam coexistir no Estado Democrático de Direito. A começar pelas prefeituras que parecem passar por verdadeiras revoluções de 4 em 4 anos. Os problema sempre permanecem. O Código Penal do Brasil não foi alterado nem com a Constituição de 1988, ele data de 1940.
Vargas deu dois golpes de Estado em vida: 1930 e 1937. Em 1954, com um tiro no peito, o presidente “saía da vida para entrar na História”. E a pergunta persiste: por quê? [aventurasnahistoria.uol.com.br]. O período ditatorial de Vargas se encerra em 1945. Em 1951 assumiu a presidência da república de forma eleita, deveria exercer a função até 1956, mas estava sendo pressionado a renunciar. Não existia impedimento do presidente constitucional e Vargas cumpriu sua promessa: Só morto sairei do Catete. Depois disso ainda teve a ditadura de 64, que se estendeu até o início dos anos 80, com gradual abertura. Mas o código penal é o mesmo. Militar responde por outros códigos penal até hoje. Não são categorizados como cidadãos, por motivos de segurança pública. Esse debate nunca foi foi realizado abertamente no Brasil.
Uma profunda reforma administrativa se faz necessária, para adequar o Estado as novas realidades sociais do Século XXI. As bases legais e constitucionais do Brasil estão em dia. Obviamente que a vigilância sobre os direitos básicos de todo ser humano devem permanecer sob vigilância constante de todos os cidadãos. Navegar é preciso, viver não é preciso: O próximo passo, na visão desse jovem historiador a serviço da população paulista, consiste grande parte em derrubar as resistências estatais com relação às novas formas de relação social que estão se estabelecendo da metade do Século XX para cá.
O avanço tecnológico criou a rede global de computadores e de celulares, constituindo uma verdadeira revolução da comunicação humana. Impacto semelhante e decorrente da criação da prensa móvel, em 1440, que deu origem a crescente difusão do conhecimento, acarretando o restabelecimento das práticas democráticas por todo o planeta Terra. No Brasil a imprensa e sua sede por informação, fundamental para a plenitude da Democracia, tem efetivo significado apenas a partir do Século XIX. A alfabetização passa a ser considerada. Vargas é o primeiro a promover grandes reformas educacionais. Segundo o IGBE (coletor, compilador e democratizador as informações sobre o Brasil desde 1872), de 1900 a 1930 foi registrado cerca de 65% analfabetos; Em 1940, 56,1%. No início dos anos 2000 a taxa de analfabetismo registrada foi aproximadamente 13%. A utilização de mídias virtuais pressupõem uma capacidade de leitura mínima para interação social de forma satisfatória. Penso que em breve toda criança será alfabetizada antes de completar idade escolar, zerando a taxa.
Tudo isso só foi possível graças ao Papel.
A letra escrita é registro histórico incontestável. Tem o poder de mudar vidas. Nossa Justiça, por falta de braço forte e mão amiga, é altamente tecnificada, uma palavra mais moderna para burocratização. Militares parecem estar mais preocupados com o poder política que com a justiça sobre seu povo.
Até hoje não basta o cidadão se apresentar com o documento de identificação em mãos e solicitar oralmente o serviço público. Precisamos de ao menos uma cópia, por vezes ainda, ilegalmente, autenticada, e uma solicitação ou requisição em escrita formal impressa, a depender das necessidades do popular. Esse pedido é submetido a apreciação de um corpo técnico que irá avaliar se a demanda é atendida pelo Estado. Sendo possível atender é encaminhado a algum diretor ou similar para apreciação e determinação da execução do serviço. Mas agora SP é Sem Papel! A base legal e funcional do serviço permanecem altamente hierarquizados e centralizados. Mesmo assim é possível afirmar que os processos serão agilizados.
A correta execução de uma ação de campo governamental na agricultura pode facilmente ocasionar mais de 30 dias de trabalhos administrativos para elaboração de todos os relatórios, controles, apreciações, aprovações, certificações, revisões, comissões, agenda parlamentar, e tudo mais que pode estar envolto ao serviço solicitado pelo cidadão. Parcela grande desse trâmite é sob a justificativa da redução dos desvios de conduta, assim como do desvio de materiais, de bens e dos próprios serviços públicos. Mesmo pensando muitos nestes “sistemas” como um canhões contra a corrupção apontados pra lugares errados, devemos convir que a burocratização é necessária. Lembrando que um papel pode demorar até 3 dias úteis para tramitar entre Itapira e Mogi Mirim.
A grande vantagem real e a curto prazo dos benefícios aos cidadãos com relação ao Programa Estadual SP Sem Papel será ampliar a velocidade do trâmites das informações intragovernamentais, agilizando o processo de planejamento e execução dos serviço públicos. Um bem estruturados sistema de certificação digital, integrando todos os servidores públicos geradores e recebedores de documentos, garante a segurança da informação. E as tecnologias atuais possibilitam que esses documentos circulem pelo Estado todo em pouco minutos, entre todas as secretarias e serviços. Mesmo sem grandes alterações nas bases legais dos processos administrativos brasileiros, é possível que a partir de agora os governantes do Estado de São Paulo possam promover práticas administrativas mais descentralizadas, aprimorando o reconhecimento dos trabalhadores que atuam esquecidos no interior do Estado.

As instituições públicas geram diariamente diversos tipos de documento. O documento público, considerado arquivístico, é o produzido, recebido e acumulado pelos órgãos e pelas entidades e é conservado com o objetivo de informar ou dar prova de um ato a uma organização ou pessoa, no contexto de suas obrigações legais ou na realização de suas atividades. É importante notar que essas tarefas estão postas para todos aqueles que trabalham com esses documentos, ou seja, todos os agentes públicos.
Ao produzir um documento no Programa Sem Papel o agente público já criará um documento de arquivo que carregará na sua constituição, tramitação até sua destinação final os conceitos e procedimentos da gestão documental.

Material de capacitação funcional para implementação do Sem Papel, 2019

A proposta está sendo lançada esse ano. Parte de mudanças na cultura estatal sobre a geração, trâmite, arquivo e destinação de todos documentos públicos. Neste processo todas as formas e tipos de relação documental estão sendo reconsideradas e adaptadas às novas realidades do Serviço em função de possibilitar, no futuro próximo, informações seguras e rápidas a todos os cidadãos. Os servidores do Arquivo Público do Estado, em parceria com todas as secretarias estaduais já estabeleceram as diretrizes básicas, assim como foi desenvolvido e aplicado tabelas de temporalidade para guarda de cada documento, assim como a definição de forma e período para livre consulta pública. Mudanças internas, que pouco fazem diferença ao usuário, mas que muda completamente a relação do servidor com seu trabalho. Precisamos falar um pouco mais disso também.
Conheça o programa: spsempapel.sp.gov.br

JM 27-9-19 – T.I. 29-9-19

Aos Deuses Democráticos

Primeiro precisamos entender que nós, seres humanos, dotados das mesmas capacidades cognitivas e força física, caminhamos pela Terra há mais de 30.000 anos. De acordo com evidências históricas, as que resistiram e que foram estudadas, a descrença nos Deuses tem alguma ligação com Egito, quando Moisés decidiu que os hebreus de Canaã deveriam voltar ao estilo de vida nômade nos desertos. As terras de Canaã foram o que chamamos hoje  de Israel, Líbano e parte da região junto ao Mar Mediterrâneo. É preciso considerar que o próprio Moisés teria entendido o conceito de monoteísmo com as novas políticas para o culto a Aton, instituída pelo Faraó Aquenáton, 1.300 anos antes do nascimento de Jesus.
Antes de avançarmos é preciso entender alguns conceitos básicos:

a. Teísmo: Crença na existência de ao menos uma entidade divina;
b. Ateísmo: Crença na NÃO existência de qualquer entidade.

1. Politeísmo: Sistema de crenças em que se aceita e respeita outros Deuses além da devoção particular;
2. Henoteísmo: A forma religiosa em que a crença particular é colocada como superior à todas as outras;
3. Monoteísmo: Doutrina religiosa que defende a existência de uma única divindade.

Egípcios, assim como hebreus e outros muitos povos espalhados pela Terra ao longo dos séculos, pregavam o politeísmo base religiosa. Rá, o Sol-do-Meio-Dia, ganha relevância no período que chamamos de Império Antigo, mais de 4.600 anos antes desse ano. De mais um Deus local e doméstico, Rá é elevado para espírito criador: No esforço da construção do Mundo, do suor e das lágrimas de Rá, surgem os Homens.
Para o mito ganhar força templos de diversos outros Deuses (alguns muito mais adorados que Rá) são atacados e incorporados na fé henoteísta: com vitória sobre os sacerdotes de Horus nasce Rá-Horaqueti; os sacerdotes de Amom também são subjugados e sua doutrina é revertida ao recém-criado Amom-Rá; muitos outros sacerdotes “livremente” se converteram neste cenário, legitimando a Doutrina para Rá e garantindo a soberania dos Faraós sobre todos os homens e seus Deuses.
Há cerca de 3.300 anos solares, antes de 2019 do ano de Cristo, uma outra linhagem de Faraós assume o trono, educados segundo outro Deus Sol Egípcio. Rá passa a ser identificado como Aton. Moisés foi criado neste contexto. Outras mudanças governamentais posteriores levaram a volta da doutrina de Rá, estabelecendo sua fama de Deus mais poderoso do Antigo Egito.
No Egito além das tramas políticas, a vida era colorida, movimentada e farta. O trabalho livre e assalariado era praticado, e com maquiagem para todos. Os hebreus tiveram dificuldade de adaptação cultural, devido a vida simples e nômade dos desertos. Uma forte seca motivou parte dos hebreus buscarem asilo nos povoados egípcios. Os hebreus foram aceitos, mas marginalizados.
Refugiados e famintos só tem seus Deuses. O politeísmo se torna henoteísta a medida que o indivíduo atribui sua vida totalmente a vontade divina. Quando a vida já perdeu completamente seu sabor, porém ainda se respira, sem consciência da motivação existencial. Se o “Meu Deus” é capaz de tamanho feito: governar a Vida de um homem contra sua vontade: Ele só pode ser o maior de todos. Em volta, só miséria, desespero e morte. Neste ponto a “minha crença” passa a ser a “verdadeira crença”, o “meu Deus” passa a subjugar os outros Deuses, mesmo no próprio clã. Os que se recusam a nova ordem são banidos ou “purificados”. A democracia é subjugada e a tirania, anunciada.
O messianismo é um mecanismo social importante para culturas nômades e seminômades, observamos isso entre os povo Tupi também. O movimento e equivalência entre os Deuses auxiliam no debate e organização do grupo frente à necessária e eterna busca da Terra Sem Males. No egito aparece o profeta que “libertou” o povo Hebreu do Egito. Penso mais em um saída estratégica e em massa, com a finalidade de reconstruir o modo de vida dos desertos.
Os hebreus haviam mudado após sua vivência entre os egípcios lutando pelo monoteísmo. A relação entre os Deuses Hebreus não eram mais tão politeístas. Cada família tenta elevar seu próprio Deus sobre os outros, tentando subjugar as crenças alheias a sua própria vontade. Moisés, crescido sob influência da nova doutrina para o culto a Aton, acaba por apresentar um novo conjunto de Leis, uma doutrina religiosa rigorosa, buscava ter controle as rixas entre as famílias. HYWY, O Senhor dos Exércitos é colocado como única entidade divina, criador e governante de tudo o que vemos e o que não vemos. Onipresente, onipotente e onisciente, o Deus da Guerra dos Hebreus saiu vencendo e incorporando seus inimigos, ficando ainda mais forte e mais grandioso. Um único Deus, não precisa mais de que um representante. Essa é a lógica da primazia política dos dos faraós, passando ao papado católico e terminando no Edir Macedo.
A influência católica é forte em nossa sociedade, a começar pelo sistema de contagem de tempo. O atual calendário se trata de um sistema adaptado do Romano, cujo o marco zero é o ano em que teria nascido Jesus de Nazaré. Tal modelo entrou em vigor por meio de Decreto do Papa Gregório XIII, entrando em vigor na sexta-feira, 15 de Outubro de 1582. Espanha, Itália, Portugal e Polónia, aceitam de imediato o Decreto Catolico, a França em Dezembro do mesmo ano. O Calendário Gregoriano também compensou uma diferença acumulada ao longo de séculos entre o calendário juliano e as efemérides astronômicas. Poucos são os que preferem estar em desacordo com o Sol a estar de acordo com o Papa. Assim a Turquia foi o último país há efetuar uma mudança formal, do calendário muçulmano para o gregoriano em 1 de fevereiro de 1927. A Fé determina diversos aspectos de nossa vida, independente da nossa própria vontade.
A Fé muda qualquer um, em qualquer lugar, em qualquer situação, por meio de qualquer Deus. Cristo, sendo um homem nascido de uma mulher, como todos nós, assume sua incapacidade de mudar as pessoas, e demonstra sua face divina: o reconhecimento dos próprios limites; Por isso o maior ensinamento Cristão é: (…) vai: a TUA Fé te salvou (Lucas, 17:19).
Conheci melhor Jesus de Nazaré no rastro de Gandhi que pela bíblia. Antes de ler a biografia do Mahatma eu não entendia a diferença entre Cristo e cristianismo, levei muitas leituras para entender os motivos para se manter no hinduísmo, tendo preferência ao pensamento expresso no Novo Testamento. Na dúvida fiz igual, me mantive na tradição religiosa familiar e local, até 2016.
Jamais conseguiremos provar a existência ou não de entidades divinas, mas sabemos que humano nenhum possui sangue que não da cor vermelha. Todos estamos aprendendo a sobreviver nessa Terra. Sem saber como chegamos e nem como partiremos. Decisões sábias são tomadas pela Razão, mesmo quando se trata da Fé. A Fé quando desconexa da Razão é perigosa, a soberania do indivíduo sem razão, mas com Fé, é ainda mais perigosa. Em Reykjavik, capital da Islândia, Norte da Europa, está na fase final a construção de um Templo dedicado a Odin. Fazia mais de 1.000 anos que os europeus não erguiam templo politeísta e nas últimas décadas foi comum templos cristãos serem transformados em bibliotecas e livrarias. Junto o neopaganismo cresceu mais de 10% dos últimos 10 anos, e no Brasil as estimativas são para mais de 30.000 indivíduos assumidamente neopagão.
Registra-se a súplica deste jovem sacerdote aos Deuses da Democracia: Iluminem nossos caminhos, corações e pensamentos, rumo a uma sociedade inclusiva.

JM 19-9-19 – T.I. 22-9-19

O problema da cocaína

Me entendo como antiproibicionista. Acredito numa sociedade cujos indivíduos sejam capazes de conhecer seus próprios limites, que por conta própria cessem o uso de substâncias e alimentos prejudiciais para sua própria saúde. Essa é a única forma de acabar de vez com qualquer comércio, clandestino ou não. Proibição é palavra, palavra é vento… e com o vento vem o pó. Nessa altura os ouvidos já estão surdos. Escutam, mas tamanha aceleração dos pensamentos impossibilita manter discernimento.
Em Itapira, observei casos de utilização da cocaína para aguentar trabalho em dobro. Jovens recém casados querendo adiantar a formação de um lar. Também existem os que fazem uso consciente e recreativo. Poucos optam por produtos de origem mais confiável, observando com mais atenção para a qualidade. Redução de danos é a chave.
A proibição é altamente prejudicial na situação que o Brasil se encontra. Pois a proibição leva a omissão. E é preciso falar sobre as coisas de forma mais clara possível, sem medo, sem culpa, sem prejulgamentos, afastar os preconceitos, mas com conhecimento e sabedoria.
Quem determina o crime são somente os Juízes, nós somos as Rês. Tudo é crime. Por isso não votamos em quem vai melhorar a máquina pública: No fundo é medo de ser preso; Não pode mais nem desenho de beijo de amor. Fuzil e sangue pode. O branco acotovela o negro que ta na mesma algema. Ridículo. Além disso, existem coisas que não deveriam ser entendidas como crime. Deveria existir pena por chinelada de mãe em praça pública, não importa a idade. Caso não apresente “mãe” o Estado arcará com uma, não para casos de adultos usuários de substância psicoativas.
Usuários de substância psicoativas, no máximo compõe parte do problema da Saúde. Jamais criminal. Camaradas, é mais fácil a filha matar os pais por herança. Mas ninguém fala de proibir herança. Os filhos que façam por merecer, herança é assistencialismo. Coincidentemente o uso da cocaína é mais frequente entre jovens que têm herança.
Outro ponto que é preciso falar, é sobre o “fazer mal”. Hoje sabemos que para determinados indivíduos o leite faz mal, para outros o açúcar, outros ainda o glúten. Proibiremos essas substâncias e alimentos também? Não. Cada indivíduo por conta própria é totalmente capaz de entender seus limites e riscos. Obviamente que com qualquer quantidade, e por mais cuidado que se tenha na utilização da cocaína, os riscos são sempre incalculáveis, assim como não existe um único tiro, mas sim “só mais um”. É preciso entender que substâncias psicoativas influenciam o funcionamento da rede neural, e nosso conhecimento neural ainda não possibilita prever adequadamente cada efeito colateral de cada substância psicoativa. É preciso mais pesquisas nesta área também, pois aspectos isolados de cada substância podem ajudar em tratamentos diversos. Sabemos por exemplo que aspectos do SLD podem ser a chave para a cura da depressão. Assim como comprovamos indicativos que possibilitam afirmar que a cocaína traz graves consequência como decadência dentária severa, disfunções sexuais e depressão severa.
Aos 15 anos eu saí de casa. Sou menino de roça, jamais ficaria 3 anos fechado nas dependências da escola-fazenda. Antes de completar 6 meses em Inconfidentes, no caminho para um rodeio o tropeiro do gado de pulo, para o carro na rodovia, arruma as linhas sobre a carteira e me oferece. Antes disso eu já frequentava rodas de fumo, nunca me ofereceram nem de brincadeira. Não me arrependo de ter negado a cocaína, sou é grato. Coleciono só histórias tristes com usuário de cocaína. Um amigo que amo muito teve 3 princípios de overdose. Um pai querendo trabalhar mais, largando filho e mulher para se tratar em clínica. E muitas, mas muitas mesmo, conversas vazias, sem lógica, sem coesão, sem contexto e sem atenção. Poucas substância fazem tamanho estrago nos seres humanos. Uma das pessoas que considero muito inteligente no meu círculo está completamente perdido e não enxerga a gravidade de sua situação, tendo tentado o suicídio mais de uma vez, passou a atacar as pessoas que sempre estiveram do seu lado. Se referindo a elas sem o menor pudor e respeito, critica Bolsonaro mas age ainda pior. Lamentável.
As únicas vezes que frequentei espaço de reabilitação de dependentes químicos foi entre os anos de 2007 e 2008, era acólito do Padre Carlos Panassolo, nos Prados, e o acompanhava em muitos lugares. Ele ia tomar confissão dos católicos internos, outros me procuravam para contar histórias. Esses espaços são importantes, mas por si só e compulsoriamente não resolvem nada. A mudança tem de ser interna primeiramente.
É preciso voltar a investir em educação e pesquisa, para sabermos aplicar os métodos. Não o inverso, como alguns pastores fazem por todo o Brasil com recursos públicos. Depois, em Campinas passei a frequentar as escadarias da Conceição na hora do sopão. Não sou nenhum especialista no assunto, apenas observo a realidade que nos circula. Gosto das belezas mas jamais fechei os olhos para o feio.
Em geral temos três tipos de “drogas”:
1. Psicodélicas: LSD, MDMA (ecstasy), cannabis (maconha) e outras substâncias derivadas de plantas ou cogumelos (ayahuasca, ibogaína, sálvia, mescalina, psilocibina etc.); 2. Depressoras: ansiolíticos (tranquilizantes), álcool, inalantes (cola, loló/lança) e narcóticos (morfina, heroína); 3. Estimulantes: cafeína, tabaco, anfetaminas, cocaína e crack.
A cocaína é estimulante com propriedades anestésicas. A coca, cujo mastigar a folha inibe a fome e o frio, também auxilia na respiração rarefeita dos picos andinos há mais de 3.000 anos. Folha Sagrada, jamais deixará de ser produzida. Além disso, é a base de grande variedade de medicamentos usados por todos. A base da cocaína chega às toneladas em Itapira: ilegalmente para as biqueiras e legalmente para a farmacoquímica.
O principal efeito da cocaína no sistema nervoso humano é criar a sensação de felicidade, o usuário ficará agitado em função da aceleração de todo seu sistema. O cérebro sofre uma profunda alteração em seu funcionamento, iniciando produção acelerada de diversos hormônios. Ficar feliz sem motivo é complexo, exige muito do nosso cérebro e corpo, mas é sempre uma experiência boa e se quer sempre mais e mais. O que não fazemos pela nossa felicidade?!
Tudo tem um preço. A felicidade também, e por meio da cocaína é mais caro. Após os primeiros 40 min de felicidade o organismo reverte a função. Depressão e impotência assumem posições pedindo mais felicidade, que só vem com mais um tiro. Alguns usuários ficam por dias nesse ciclo vicioso sem dormir ou comer. O organismo exige uma quantidade cada vez maior de cocaína para provocar a mesmo resultado anterior. Com mais “combustível”: mais aceleração. Todo sistema sobrecarregado corre mais riscos de sofrer um colapso total.
Observe o quadro geral: o indivíduo está sem dormir e sem se alimentar, geralmente alia o uso de álcool (depressivo e catalizador da desidratação), mas o organismo está a pleno vapor, queimando as substâncias do pó (cuja cocaína é a menor parte) mas também queimando estoques de energia do corpo, provocando subnutrição e mal funcionamentos dos órgãos. Nada substitui sono e alimento. Rins, fígado e canais sanguíneos e respiratórios são os primeiros afetados. Com o tempo as consequências mentais vão ficando mais aparente. O cérebro deixa de reconhecer situações reais de riscos, provocando paranoias e alucinações; alteração do humor e do funcionamento cognitivo são outros sintomas positivos da esquizofrenia.
É conhecido que boa parte dos internos em clinicas psiquiátricas diagnosticados com esquizofrenia tem uma relação muito próxima e longínqua com a cocaína. É preciso entendimento especialmente por parte do próprio usuário, para buscar ajuda de profissionais especializados o mais rápido possível para evitar danos irreversíveis e/ou sofrimentos desnecessários.
Cada vida humana importa.

JM 11-9-19 – T.I. 15-9-19

Vivência pública

Havido leitor, precisamos conversar sério;
Cresci escutando causos e contos, a forma do caipira de ensinar sobre o que verdadeiramente importa. Minha eterna Gratidão aos meus avôs: Elydia Cima e Elbe Marquezini. Meu avô se banqueteia com os Deuses, minha avó conversa comigo sobre a vida. Em casa mãe e pai liam um conto por noite e a biblioteca ainda cresce. Sou verdadeiramente Privilegiado.
Meu primeiro contato com a política foi aos 15 anos de idade. Já líder de turma, nos primeiros meses de aulas, o veterano Renato me chama pra conversar: – Precisamos de novato, é preciso representatividade e você precisa entender como as coisas funcionam. Posso colocar seu nome? – Ele foi Presidente eleito da Coop-EAFI-MG, fui vice-presidente do Conselho Fiscal. Minha turma sempre foi a mais barulhenta: mais de 30 moleques, a única turma sem mulheres; e a melhor média. Auto-Organizados, mantinham um calendário de estudos extras. Ainda tive a honra de representá-los no Grêmio Estudantil entre outros projetos menores e temporários. No último ano, de manhãzinha ameaça greve para obter melhorias, ia almoçar no bandejão com ministros e secretários do Governo Lula, depois caminhava com eles pela escola, referência de ensino. “Aqui aprendem pescar sozinhos: Plantam e colhem a própria comida e limpam seus próprios territórios”, deveria ser o slogan. O governo retribuiu com concursos públicos isentos e maior autonomia administrativa e de gestão de recursos. Não importava a visão política dos representantes internos, o Governo Federal nomeava o líder da tríplice lista sempre. Em 2006 todos, alunos, professores, servidores, e representantes da sociedade civil, voltaram para Diretor da EAFI-MG.
Entre 2004 e 2006 foi construída biblioteca modelo, com funcionamento diário até a noite e nas manhãs de domingo. Sempre haviam várias rodas, fui expulso mais de uma vez pelo barulho. 1000 alunos, mais de 4000 refeições ao dia, mais de 4000 leitos de dormir. Lavanderia, enfermaria com alguns preventivos naturais, acompanhamento pedagógico e psicológico. Neste período ainda inaugurou cursos superiores, com posterior reconhecimento de suas faculdades. A Coop-EAFI-MG comercializava os produtos da Fazenda-Escola, era responsabilidade dos dirigentes da cooperativa o manter. Seguíamos uma escala: 1 dos 2 dias de atividades práticas no comércio local. No outro dia de prática, era o mesmo serviço dos “raspa bosta”: limpar chiqueiros; quebrar milho; colher frutas e verduras; fazer Doce de Leite; Roçar, capinar, podar e toda gama de trabalho diário e rotineiro de uma grande e diversa propriedade rural. A maioria de nós, como eu, já executava tais serviços antes da escola. Seguimos entre a caneta e o cheiro de curral, no coração atlântico do maior celeiro e maior concentração de água doce do mundo. Há 100 anos, o primeiro Patronato Agrícola do Brasil, uma instituição corretiva; Na década de 30 passa ser exclusivamente formativo: Aprendizado Agrícola; Na Década de 70: Escola Agrotécnica Federal; e, pouco antes de 2010: Campus de Inconfidentes-MG do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas.
Entre 2005 e 2007 estive engajado na Igreja Católica. A voz do povo é a voz de Deus, diziam. Levou anos para entender que o Cristianismo, infelizmente, tende mais para o imperialismo absolutista que para a razão dos 13 de Santo Cristo. Todo respeito aos ensinamentos do mestre Yeshua e seus discípulos, tento colocá-los em prática, mas seu legado está corrompido e precisamos superar o 1. Somos plural, existem muitos caminhos para a salvação. Todas envolvem amor, perdão e respeito. A obrigação ao culto divino é trabalho sacerdotal.
A bastilha caiu em 14 de Julho de 1789. Em 14 de julho de 2008 eu iniciei efetivo exercício como Técnico em Agropecuária na centenária Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, a SAA, na regional de Campinas. Em 2011 já tinha colega passando de departamento em departamento em campanha: – Um técnico não pode fazer isso… – Eu entendia: – Ele não pode fazer minhas obrigações não cumpridas! – Depois disso o Governo do Estado efetivou uma tiragem (que se esgotou rapidamente) de um livreto de atividades educativas sobre a Raiva dos Herbívoros de minha autoria e ilustração. Desenvolvi a arte visual para duas CEFAs, entre outras coisas fora os trabalhos corriqueiros comuns a todos servidores, incluindo atividades em campo (fundamental para uma efetiva vigilância sobre a qualidade de tudo que comemos).
Em 2013, já em Mogi Mirim, aceitei a função de substituir o Diretor I. Assumi interinamente a cadeira por cerca de 2 anos. Até que novamente: – Um técnico não pode fazer isso… – Em 2015 sofri uma agressão física. 18 de dezembro, por volta das 9h30 na estação de trabalho de atendimento ao usuário do serviço público da regional da SAA de Mogi Mirim. Havia acaba de concluir em um semestre o curso de Licenciatura e no outro semestre Bacharelado em História, encerrando minha participação no Centro Acadêmico.
O agressor, de finas e macias mãos, está praticamente aposentado. Ainda não julgado pela Justiça, nem pelo Executivo. De 2015 a 2017 tenho as únicas 4 reclamações registradas na ouvidoria em 11 anos de atendimento ao cidadão. Em uma delas respondi com prova documental da estreita ligação do agressor com o reclamante, assim como pela real incapacidade legal de se atender a demanda apresentada. Situação atual da servidor agredido: Não autorizado.
Em 2016 tive a honra de atuar como candidato a vice nas eleições ao lado de Cristiano Florence para Prefeito de Itapira, #PSOL50, nossa estreia ficou registrada com 11,5% dos votos válidos. Na vereança, Prof. Lio ficou em 5º, de 10, mas sem cadeira. Em 2018, eu pedi e os camaradas atenderam. Surpresa: 1.965 votos para Deputado Federal, espalhados por 182 municípios em todos os cantos do Estado de São Paulo. Dentro do 1º ¼ do bloco com maior votação na lista geral de candidatos.
Sempre fui só um rosto bonito e inteligente. O trabalho de verdade é executado pelos movimentos que estive engajado: Se a cidade fosse nossa: Itapira; PSOL; Sarau Cultural; Transcender o Conhecimento; Não a Taxa do Lixo; Movimento popular contra o reajuste do subsídio para agentes políticos de Itapira; Espaço Cultural Transcender; Conselho de Cultura e Conselho de Turismo; Circolo Italo-Brasiliano; Mostra de Artes Moderna e Contemporânea; M.M.D.C.; entre muitas outras iniciativas que auxiliei mais diretamente ou indiretamente. Minha caminhada é a caminhada de muitos e a caminhada de muitos é a minha também. Jamais caminhamos sozinho. Tudo é aprendizagem. Todo poder emana do Povo Reunido e Organizado.
Sempre pedi mudanças, inclusive comportamentais. 2019 está sendo o ano da renovação. É sobre isso que quero falar. Era hora de colocar a cara no Sol de verdade. Nasci com pensamento esquerdista, mas bebi, e muito, de outras fontes. Toda minha idealização, valores e filosofia tem base numa sociedade o mais democrática possível, com justiça e respeito. Entendo que, tudo isso está melhor representado no programa e e construção do PSOL 50. O único Partido do Brasil, o resto é balcão de negócio.
Em 2018 eu perdi o controle da situação, obviamente que não tinha estrutura para os projetos que me lancei. Longe de ser o tipo iludido, tenho ciência que a estrutura só vem com prática, e minha formação teórica está à uma cabeça sobre a média. Entendo que é exatamente para isso que existam partidos e outros movimentos, para que possamos ter vivência política, o que aprimora no autoconhecimento que por sua vez, auxilia na escolha frentes os caminhos da vida. Precisamos melhorar esse auxílio na caminhada política.
Considero que os principais aspectos construídos nestes anos estão colocados nestes primeiros 11 ensaios, publicados semanalmente e originalmente pelo Tribuna de Itapira.
Para apresentar tudo isso que vem se desenhando, na política e além, lancei o sítio eletrônico marquezini.com. Terão melhor experiência visual se acessado por computadores e notebooks. Me manterei nas redes pela página: facebook.com/Hist.marquezini; e instagram.

JM 27-8-19 – T.I. 8-9-19

Ocorrência de FNO em equinos no Estado de São Paulo

Na cidade de São Paulo, capital do nosso Estado, um equino apresentou sinais neurológicos (ataxia e incoordenação) com rápida evolução do quadro para convulsões e decúbito persistente.  O Laboratório de Pesquisa em Virologia Animal da Universidade Federal de Minas Gerais (LPVA/UFMG) foi o responsável por analisar os primeiros materiais biológicos coletados em campo, confirmando a presença do vírus da família flaviridae. A imediata comunicação à Defesa Agropecuária sobre a confirmação do diagnóstico para Febre do Nilo Ocidental – FNO deu início ao trabalho de inteligência da Vigilância Agropecuária de nosso Estado. Providências junto ao Ministério da Agricultura e Agropecuária – MAPA, bem como com a Organização Mundial de Saúde Animal – OIE já estão em andamento para determinar as melhores forma para conter o avanço epidemiológico.
A Febre do Nilo Ocidental – FNO é de uma ZOONOSE; acomete seres humanos também. O contágio humano (via animal) ocorre geralmente por meio de contato direto com AVES e EQUINOS. A principal transmissão se dá pela picada de mosquitos, do gênero culex [pernilongo] infectados, assim como a Dengue, a Febre Amarela, Zika e Chikungunya. O primeiro caso em humano no Brasil foi registrado em 2014, no Piauí: O paciente apresentou encefalite e sobreviveu, embora tenha apresentado manutenção de sequelas neurológicas. Em 2018, mais de 100 pessoas morreram em decorrência de complicações com a FNO na Europa. O primeiro caso nas Américas foi em 1999. O Governo Federal criou em 2003 o Sistema Nacional de Vigilância da Febre do Nilo Ocidental no Brasil. Desde então foram registrados mais de 300 casos (nem todos confirmados) e 2 óbitos (confirmados) até o momento.
Não existe vacina ou tratamento antiviral específico. O tratamento é sintomático para redução da febre e outros sintomas. Para uma resposta eficiente do poder público, é preciso retomar os investimentos em educação e pesquisa, assim como para serviços de vigilância sanitária e epidemiológica animal, neste processo também é fundamental conferir maior autonomia ao corpo técnico de  trabalhadores públicos.
Até lá, a melhor maneira de prevenir a FNO (assim como muitas outras doenças) é evitar a presença de insetos, com as seguintes ações:

  1. Coloque em prática as orientações recebidas;
  2. Compartilhe informações seguras e corretas;
  3. Evite água parada;
  4. Ampliar investimentos com limpeza e saneamento básico;
  5. Utilizar telas nas janelas e portas;
  6. Destine o lixo de forma adequada (jamais na beira de estradas, rios, lotes, etc);
  7. Faça uso de repelentes (evite se intoxicar, priorize meios naturais);
  8. Evite manusear animais mortos. Evite o contato direto. Se você deve lidar com eles, usar luvas duplas de procedimento, que fornecem uma barreira protetora entre sua pele e sangue ou outros fluidos corporais; e
  9. Troque informações com os profissionais dos Postos de Saúde e das unidades de atendimento da Defesa Agropecuária;

Trabalhadores com maior risco são aqueles que trabalham ao ar livre, que incluem: trabalhadores rurais, técnicos agrícolas, agricultores, pecuaristas, médicos veterinários, agrônomos, zootecnistas, biólogos, paisagistas, jardineiros, trabalhadores da construção civil, entomologistas e outros trabalhadores de campo.
Em nota oficial o Serviço Público de Defesa Agropecuária do Estado de São Paulo informa que nos equinos o período de incubação da FNO é de 3 a 15 dias, podendo manifestar sinais clínicos em 10 a 40 % dos animais infectados. A mortalidade até o momento está entre 30 a 40% dos equinos contaminados, podendo haver recuperação após 7 dias do início dos sinais clínicos. Perante qualquer suspeita um Médico Veterinário deve ser consultado. O Serviço Público deve ser informado da confirmação do diagnostico por meio de exame laboratorial.
No Estado de São Paulo, o canal mais rápido e seguro para trocar informações específicas sobre a Febre do Nilo Ocidental – FNO nos equinos é pelo Programa Estadual de Sanidade dos Equinos – PESE, o atendimento é realizado pelo e-mail:

pese@cda.sp.gov.br

Informações sobre suspeitas de ocorrência de FNO em equinos nos municípios de Itapira, Artur Nogueira, Conchal, Cosmópolis, Engenheiro Coelho, Estiva Gerbi, Holambra, Jaguariuna, Mogi Guaçu, Mogi-Mirim e Santo Antônio de Posse, devem ser efetuadas via e-mail oficial:

eda.mogimirim@cda.sp.gov.br

JM 2-9-19


Anexo I

Nota Oficial da Defesa Agropecuária de São Paulo sobre a ocorrência em equinos da Febre do Nilo Ocidental – FNO


Anexo II

Artigo do Ministério da Saúde do Brasil sobre a Febre do Nilo Ocidental – FNO

Arandu porã III

Esse é o terceiro ensaio sobre aspectos do que eu chamo de Cosmologia Tupi, uma teorização generalista da fé nativa brasileira a partir do limitado conhecimento que temos sobre os povos, tendo como principal base a cultura Guarani Mba’e.
No primeiro ensaio o foco foi apontar a ligação da fé com o sistema produtivo, revelando a estreita relação da prática religiosa com o trabalho de cultivo das Florestas. Sempre lembrando que as Florestas produzem alimentos, remédios e entretenimento. O equilíbrio do ecossistema é fundamental para a preservação da vida neste mundo imperfeito e isso é passado pela tradição religiosa Tupi.
Depois, no segundo ensaio, ousei entrar no campo ainda mais reservado aos Pajé, a filosofia religiosa Guarani e a principal diferença em relação ao pensamento religioso mais aceito atualmente no Brasil, a onipresença do Deus Cristão. Nhanderuvuçu também é um Deus vivo, mas não uno, nem presente. Tal Deus é anterior ao nosso Tempo-Espaço, ele provoca o “Big Bang” [Kaárara] e jamais interage diretamente com este plano. As coisas não existem assim de um momento pro outro, tudo é uma construção, um processo. Assim a força de Nhanderuvuçú, Oguera jera, como o desabrochar de flor, cria o nosso Espaço-Tempo. No plano Espiritual nascem os 3 Corações Grandes: Karai, Jakaira e Tupã. Esses Espíritos primários criaram e governam nosso mundo. Ao longo das gerações os Espíritos e seus enviados foram ensinando aos povos como melhor viver nas Florestas. Esse processo raras vezes é literal, como no caso do Ancião Yanomaká Kumã, falecido aos 102 anos de idade, em 2017 (Que Mavutsinin te conduza ao tempo dos avós na aldeia dos ancestrais!) considerado o maior Pajé do Brasil, sendo o último que conversava diretamente com os Espíritos. Na sua cultura os Espíritos recebem o nome de Mamaé. Sapaim Kamayurá, como era conhecido no mundo branco, teve sua primeira experiência extrassensorial aos 10 anos de idade, por 3 meses ele recebeu, em sonhos, diversos Mamaes: das matas, das águas, dos ventos, da terra, entre outros; lhe ensinaram sobre cura, sobre as ervas, sobre música e dança. A partir dos anos 90 ele ficou conhecido por todo o mundo, realizando cura em todo tipo de necessitados, de celebridades, autoridades políticas e diplomáticas, especialmente aos diversos povos xinguanos e outros povos indígenas, em especial no Xingu, onde viveu.
Os pajés, em sua maioria, buscam reconhecimento na medicina, pelo profundo estudo da herbologia brasileira de uso medicinal. Reforçam o caráter de curandeiro, deixando para segundo plano ou se desligando totalmente do papel de líder religioso. Sapaim foi uma raridade. Neste movimento devemos lembrar também que ainda é usual a prática da Doutrinação Cristã, o que chamam de evangelização. Provocando os nativos para o abandono não somente suas crenças, mas também do seu modo de vida: o trabalho de cultivar as Florestas; afastando todos de alcançar Aguyje.
O movimento cristão é aliado ao movimento de urbanização, relação que o capital explora nas formas mais lucrativas possível. Enquanto que na relação social chamada de “tribal” há interdependência entre natureza e cultura, efetivando um sistema produtivo racional e em harmonia com o exossistema global, senão superando-o. A fé cristã se distancia mais das questões práticas e/ou pragmáticas, como a produção de alimentos e/ou da comunhão do alimento real, dos remédios reais e do entretenimento, sendo cada vez mais uma relação subliminar e subjetiva entre o Homem e o Divino. Um Deus vivo e presente, mas que somente responde pelo pastor.
Em uma conferência na Universidade de Brasília, em 2016, duas frases me chamaram muito atenção. O conferencista era o Pajé conhecido pelos não-indígenas como Álvaro Doethiro [Tukano], da Bacia do Rio Negro:

“Nunca param de estudar os índios. Mas quando o índio está lascado, não tem nenhum padre ou pastor que vem. Sobra problema pro Pajé..”

“Segredos, sempre serão segredos. Mas aqui, estamos numa universidade, que é uma roda de sábios. A universidade é pra desenvolver a inteligência humana. Para melhorar o conhecer outros povos, pra poder se respeitar.”

Pajé Álvaro Doethiro

Assim como em outras profissões de fé, na visão Tupi o Homem também é criatura superior, sendo eles os escolhidos dos Deuses para auxiliar no trabalho de recriar o Mundo. Não existe o pecado, não existe culpa. Existe uma dívida dos Deuses para com os Homens, e a Promessa Ywy mara eÿ [Terra Sem Males]. Mas essa comunicação somente se efetiva pelo Mborayu [solidariedade comunitária], o que os cristão traduziram como “amor ao próximo”, o que não muda o entendimento do conceito do termo Tupi. Não havendo o pecado e o mal, a relação se dá na dualidade complementar do material com o imaterial: Homem + Espírito; Corpo + Fala; Eu + Deus; Tempo Cosmológico + Tempo Social; Indivíduo + Família; Realidade + Sonhos = Ser Perfeito, 2, Aguyje.
Os indígenas tradicionais têm ciência da incapacidade da grande maioria dos cristãos de compreender que existe vida sem culpa. Nheë porã é a Bela Fala: o nome próprio e a comunicação divina. Nheë porã se trata de busca, não de determinação. Nheë porã majoritariamente é o silêncio. O silêncio é entendido equivocadamente como segredo e ocultismo. A riqueza poética e diversidade cultural dos muitos deuses é dado como herético, e o herético é dado como crime. Os Deuses, Espíritos, Heróis, Sábios, e toda gama de entidades que coexistem nas mentalidades politeístas, são considerados pelos cristãos como obra do demônio, e Deus se torna autoritário e perverso. Notemos que o mesmo ocorre entre os povos primitivos Europeus. Se num primeiro momento a Igreja Primitiva, com forte ação político-social, era marginalizada, sendo a fé do povo, no segundo (ainda em vigor), os não-cristão passam a ser marginalizados. Ocorrendo diversas “caças às bruxas” queimando mães vivas em praça pública (punição para os que não se convertam). Cristo se tornou no Mundo o bode expiatório de Tiranos, exploradores não só da fé do povo, mas de no mínimo 10% de todo o suor dos trabalhadores, que somente são convertidos em bens materiais cujo uso é restrito dos executivos de Cristo. Em geral a atual fé cristã de Jesus só multiplica deputados, quase nenhum pão, tão pouco conhecimento. O imposto que mantém escolas públicas é dado como “roubo”.
Não único, mas o que mais ganha repercussão é o caso do Ongusu [casa de reza], do Ñanderu Getúlio Juca e da Ñandesy Alda Silva, do povo Kaiowá, foi incendiada em julho de 2019 (Ru e Sy são termos indicativos para Pai e Mãe). É a segunda vez que o Ongusu da mesma aldeia sofre incêndio criminoso depois dos anos 2000. A notoriedade sobre Gwyra Nhe’engatu Amba se dá pelo fato de ser o único Ongusu em funcionamento na região de Dourado, e sendo referência cultural do Estado do Mato Grosso do Sul. Além do espaço educacional sobre as questões da floresta, um artefato sagrado para o povo Kaiowá foi perdido. Xiru é um tipo de cruz de madeira. Em Gwyra Nhe’engatu Amba haviam 3 Xiru, o queimado tinha aproximadamente 180 anos. O local é ponto de encontro de lideranças e estudantes da cultura Tupi, abriga eventos de diversos tipos, assim como recebe diariamente pessoas de toda as esferas para vivências e aconselhamentos espirituais. Tornando-o local sagrado.
Devemos aprender que ninguém ouvi Nhaderuvuçu, apenas contamos diferente uma mesma História: a História da Humanidade na Terra. Pode chamar de Ála, Deus, Senhor, Nhaderu, Arquiteto, Criador, Grande Espírito, Olorum… Ele é o Fim e o Começo, é o Universo e não é nada, pode ser nenhum e pode ser todos. E somos todos irmãos, só que uns usam gravatas como adorno, outros penas.

JM 27-8-19 – T.I. 01-9-19

Arandu porã II

No ensaio anterior apresentei algumas bases que suportam a afirmação de que a devoção Tupi consiste em um compêndio de saberes, transmitidos por gerações pela oralidade (no caso Guarani há pelo menos 6000 anos), essenciais a vida de qualquer um que necessite de uma relação mais direta com a produção de alimentos. Neste movimento o sistema produtivo Tupi se difere da construção e aprimoramento das práticas e técnicas agrícolas aplicadas em larga escala pelos europeus. Aqui os agrupamentos humanos se organizam para manter o equilíbrio e a melhoria dos alimentos que sempre existiram em abundância, aprimorando ecossistemas produtivos integrados e semi-integrados. AgroFloresta é novidade só pra branco. Daí a formação de sociedades tão similares na essência e tão dissonantes na expressão cultural. Por todo continente a fé liga o indivíduo a coletividade, criando modos de vida que priorizem a preservação e melhoramento das florestas como ação efetiva para alcançar Ára pyau (Tempo-Espaço Novo) e por consequência o indivíduo pode alcançar Aguyje (Estado de Perfeição). Lembrando que, as florestas sempre produziram alimentos, medicamentos e entretenimento. Nisso consiste o cerne do pensamento religioso em questão: Alinhar o indivíduo (Eu) com o plano material (Necessidades) e com o plano imaterial (Desejos, sonhos). Isso é o que chamo de verdadeira trindade divina. Manter esse equilíbrio é o Belo Saber, Arandu porã, de Nhanderuvuçu.
Assim passamos para a Cosmologia Guarani. Nhanderuvuçu é o marco zero do nosso tempo-espaço atual, Ñande ru papa tenonde [Nosso Pai, ultimo-ultimo primeiro]. Tudo o que existe, o que vemos e o que não vemos, é reflexo imperfeito de Nhanderuvuçu. A força de ação Dele é chamado Oguera jera, se trata de um movimento auto-gerado e gerador, desdobrando-se em si mesmo, como desabrochar de uma flor. Assim se cria os três primeiros grandes espíritos criadores (não tão simples assim): Karaí, Jakaria e Tupã. O reflexo imperfeito desse movimento é chamado de Kuaárara, a criação no nosso plano, a Terra, o Sol, a Lua e as Estrelas. Salienta-se que nesse pensamento religioso sempre foi aceito que o Homem não habita somente este sistema solar.
Karaí tataendy Já, senhor do fogo, seu reflexo é a criação do nosso universo, nosso Céu, o Sol, nosso Pai, Rupave; Jakaria tataxina Já, senhor da fumaça, seu reflexo é a criação da Terra, a sabedoria da vida, nossa Mãe, Sypave; Tupã paraguaçu Já, senhor da Grande Água, seu reflexo é a criação do verbo, da fala, do próprio homem, o indivíduo e a organização coletiva. E assim se dá, grosso modo, a relação entre as principais entidades espirituais.
Então, um pouco sobre o Kuarupe. Hoje a maior confraternização indígena do Brasil, ocorrendo anualmente no parque do Xingu. A questão que envolve o Kuarupe é a confirmação dos limites sociais e celestiais. O indivíduo se vai, cumprindo seu ciclo neste plano, mas outros ciclos permanecem, como a aldeia, a família e a floresta; nesta ordem de longevidade. A grande lição do Kuarupe, nesta análise (há muitas outras lições), é que sempre tem um recomeço, se não aqui, no plano Espiritual.
Essa vida é imperfeita, adoecemos e a infelicidade está sempre presente, somente pela vida em sociedade é que podemos nos tornar perfeitos, Aguyje, e isso é representado pelo canto e pela dança. Momento em que todos se pintam, se enfeitam com flores e penas, assim como se enfeitam os Deuses para dançar a dança que mantém a vida. O Cocar é a Coroa Solar. Todos usam cocar nas festividades, cada qual rei de si mesmo, representação da face metamorfoseada de Nhanderuvuçu. Dançam juntos e as bocas entoa a mesma divina canção. Então não existe mais o indivíduo, ele foi incorporado formando uma grande e forte entidade: a comunidade. Uma cópia dos grandes Espíritos. Mborayu, é a “solidariedade comunitária”, o que os católicos mais tarde traduziram como “amor ao próximo”. Pierre Clastres, em 1974, depois de 10 noites de conversa na fogueira com líderes religiosos do povo Guarani escreve:

“Na origem do tribalismo guarani encontra-se a divindade da Ayvu: o ser social da tribo enraiza-se no divino.”

Pierre Clastres, 1974

Nesta linha de pensamento é que se desabrocha a relação entre o Tempo Cosmológico e o Tempo Social, criando um calendário cíclico com base nos ciclos do Cajueiro, sendo o ano chamado: Akayu; e na cultura do Milho. Passando por um profundo conhecimento sobre os movimentos intergaláticos, considerando também os ciclo reprodutivos e geracionais dos animais. Os ciclos menores: o que chamamos de mês, são os ciclos da Lua; e o que chamamos de ano, são os ciclos do Sol; são observados por todos de forma simples. Havendo também ciclos mais complexos, como as casas estelares e outros eventos cosmológicos, marcando alterações no clima.
Havendo ainda um fator muito pouco estudado: os Karai. Em geral são um tipo de Pajé avançado, que vive em isolamento. Indícios das narrativas dão a entender que eles determinam os ciclos das grandes migrações. Essas migrações tem caráter messiânico: O Karaí busca determinado povo para assumir posição de Mestre da Palavra, Ñe’ë Jara, o que chamamos de profeta, assim conduz literalmente todos para Ywy mara eÿ, a Terra Sem Males. Tais migrações não são mais possíveis devido a constante redução das florestas e reservas indígenas. O movimento que o povo Guarani vem executando é o de buscar determinados recursos nas cidades, passando temporadas nas vilas e cidades, assim como para estudar, fazendo das aldeias lugares sagrados. Também se mantém o hábito semi nômade de passar grande temporadas na casa de parentes distantes. A Grande Nação Guarani (cerca de 284.800 ava) circula entre o Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso e Pará, além da Argentina, Bolívia e Paraguai.
Nota-se que em geral nas devoções praticadas pelos brancos o número 1 tem grande valor. A unidade do ser e de Deus é sempre exaltada, numa relação privada, unilateral Deus>Homem. O número 1 é o líder, o pioneiro, é o próprio Eu, é a originalidade, é o poder. Pierre Clastres desejava coletar outras versões dos principais saberes Guarani, para comparar aos coletados por León Cadogan (na década de 50). Acabou por coletar explicações inéditas, a fé Tupi beira o segredo. Destas conversas Clastres se debruça sobre a fala de um Sábio: “As coisas em sua totalidade são uma. E, para nós, que não havíamos desejado isso, elas são más”.
Enxergamos apenas um mundo, enxergamos no outro apenas um indivíduo. Numa filosofia pré-socrática parece justo o “1” ser representação de algo poderoso, algo essencialmente “bom”. Porém para os Guarani, povo dos Ava, eleito pelos Deuses para transformar Ywy mba’e megua (a Terra Má) em Ywy mara eÿ (a Terra Sem Males), a perfeição é o “2”: Tempo Cosmológico + Tempo Social; Homem + Espírito; Corpo + Fala; Eu + Deus = Ser Perfeito, Aguyje. Quando se sai da solidão do indivíduo e se chega na solidariedade comunitária (Mborayu), havendo harmonia com a Terra, o indivíduo pode alcançar o Nhemonkadire, a ascensão de corpo para Nhanderuvuçu, Ñande ru papa tenonde [Nosso Pai, ultimo-ultimo primeiro].
O alicerce da fé Tupi está no enfrentamento do próprio ser, incluindo sua solidão, tristeza e infelicidade, assim como a doença e a morte, buscando alívio, felicidade, alimento, remédio e entretenimento, na vida comunitária e nas florestas. Nesta vida comunitária é que também se mantém os trabalhos para que a Floresta continue florescendo, como Oguera jera: se desdobrando em si mesma, mas com alguma ajuda nossa. O coletivo sempre supera as imperfeições e adversidades individuais.

JM 22-8-19 – T.I. 25-8-19

Arandu porã

É conhecido que ainda resistem ao menos 10 povos nativos no Brasil, totalizando mais de 181.400 indígenas. Estima-se que quando os europeus por aqui chegaram eram mais de 15 milhões de indivíduos, espalhados pelas florestas Amazônica e Atlântica (incluindo as partes que se encontram atualmente sob domínio de outros países). E sabemos que habitam este continente há pelo menos 20.000 anos.
Não sabemos como chegaram, nem quando. Sabemos que cada agrupamento humano criou seu próprio modo de vida, seu modo de sobreviver na mata fechada, quente e úmida, que compõem grande parte da vegetação e clima de nosso território nacional. Para Eduardo Neves, um dos maiores especialistas em arqueologia na Amazônia, os povos nativos desenvolveram outras formas de agricultura e pecuária, um processo muito mais orgânico e integrado que o praticado pelos povos primitivos europeus. O resultado foi o cultivo, seleção e domesticação de quase todas os vegetais e animais das florestas Amazônicas e Atlânticas. Assim sua tese revela que pirâmides e Estado são anomalias sociais oriundas de sociedades que enfrentam a escassez de alimentos. Os Tupi não tiverem necessidade de se organizar em Estado ou de construir fortificações, pois bastava esticar o braço para apanhar uma fruta. Neves está se preparando para lecionar em Harvard, EUA.
Pessoalmente penso que, quem não entende a necessidade do equilíbrio ecológico e cai no conto da monocultural, jamais poderia se chamar produtor rural, pois, de fato é um explorador. Produtores Rurais cultivam a Terra, zelando pela equilíbrio ecológico e passando sabedoria na forma oral. Não se enganem é preciso muita sabedoria, mas muita mesmo, para cultivar algo, mesmo em terras em que tudo que se planta dá. Entendam, indígenas não são “inocentes, menos ainda são “pobres coitados protetores da natureza”. Não preservam as matas por gosto, ou por serem “bonzinhos”. É necessidade! É produzir alimentos da forma mais racional possível, constante de forma que o próprio ambiente seja capaz de se desenvolver com mínima interferência quimica ou fisica. É garantir a manutenção da vida humana na Terra! A questão sempre foi: Como passar tanto conhecimento para o máximo de pessoas de forma que todas detenham capacidade similar, ao ponto de motivar um processo de autogestão, na tarefa cotidiana de cuidar das maiores florestas do mundo, gerando alimentos, medicamentos e entretenimento por gerações, com o menor esforço possível? A resposta nunca esteve no capital. O Capital explica os erros, não aponta para a resolução deles. Os Tupi, cuja grande maioria são organizações sociais teocráticas e hereditárias, não desenvolveram outros sistema que não alinhado ao religioso. Mesmo o comércio é subordinado ao calendário e preceitos religiosos. Chamamos, erroneamente, a religião Tupi de “superstição”, quando na realidade é equilíbrio ecológico produzindo alimentos para todos de forma automatizada. As “superstições” são manual de ação e manutenção do pleno funcionamento desse delicado equilíbrio.
Percebam que, a caçada é tradição para alguns povos Europeus, sendo um verdadeiro ritual de passagem da nobreza inglesa, por exemplo. Tal classe social nunca precisou preparar sua própria comida, porém sempre souberam o que é falta dela. O solo pedregoso e invernos rigorosos não permitem o desenvolvimentos de alimentos que não rasteiros ou de arbustos, sendo então uma alimentação baseada em trigo e alguns legumes. Em longos invernos, tanto camponeses quanto nobres sofriam racionamentos. Nenhuma divisa humana é capaz de conter a fome e a sede.
Assim as narrativas cosmológicas Tupi, base da religião por eles praticada, se faz um compêndio de saberes. Mas cada povo expressa de uma forma. Os nômades Xinane uma grande ave percorre os céus semeando os homens pelo mundo. Para alguns povos todos nos viviamos no fundo da terra, até que um tatu mágico abriu o burraco pelo qual os homens e outros animais chegaram até o melhor lugar para se viver em toda superfície da terra. Outros dizem que descemos dos céus, por cordas. Ainda há os que acreditam que nascemos da terra, como plantas. Outros ainda crêem que somos puro barro. Essas explicações não são puramente fantasiosas, elas também passam por pensamentos lógicos e pedagógicos, expressando a reflexão coletiva sobre a origem de todas as coisas existentes e como elas se relacionam dentro de determinado modo de vida.
Notem que a explicação sobre a origem humana relaciona de alguma forma o Ceú e a Terra, como partes criadoras de tudo, incluindo o Homem. Essa linha de pensamento não é exclusividade Tupi, mas sim principal linha de racionalização da fé por todo o globo terrestre.
Assim a cosmologia Tupi passa pela conciliação e integração do Ser, com o material e com o imaterial. Tal pensamento religioso Tupi passa por entender nossa realidade como um reflexo de um plano espiritual. Sendo admitido a possibilidade, remota, de passar deste plano para o espiritual sem atravessar a morte, o que chamam nhemonkandiré. Em termo católicos, ascensão aos céus, o que ocorreu com Nossa Senhora, segundo a tradição romana.
Nesta visão trina o Ser, o eu, o Humano, a Sociedade, é resultado resultado direto da integração do material, do planeta, a Grande Mãe Terra, A Lua, com o imaterial, os Espíritos, o Grande Pai, o Céu, o Sol. Em algumas culturas pertencentes a grande nação Guarani esses espíritos são chamados de Sypave, a Mãe dos povos, e Rupave, o Pai dos povos.
Mas a força criadora não é desses espíritos. Eles são a primeira criação do Grande Espírito: Nhaderuvuçu, nossa Pai Verdadeiro, ultimo-ultimo primeiro. Tal espírito é puramente imaterial, vive em outro plano, sendo impossível a qualquer homem se comunicar ou interagir com tal entidade. É como se o Universo fosse um rastro do poder que já passou, tudo o que vemos e sentimos é a sombra longínqua de Nhanderuvuçu.
A força do Pai Verdadeiro vem do Oguera jera, um movimento autogerado em contínua expansão universal e geradora. Uma força que desdobra-se a si mesma gerando vida material e imaterial. Desde movimento nascem Então no plano espiritual: Karaí Tataendy Já, Senhor do Fogo; Jakaíra Tataxina Já, Senhor da Fumaça; e Tupã Paraguaxu Já, Senhor da Grande Água.
Oguera jera se desdobra continuamente. Seu próximo movimento foi é Kuaárara. Somente então temos a criação do nosso Universo, uma cópia imperfeita do espiritual. No Xingu, umas das maiores celebrações, que envolvem grande parte dos Tupi é o Kuarupe (pesquisem na internet, é lindo). Contam os pajés que quando os primeiros homens começaram a habitar a Terra, havia um filho dos espíritos que se dedicou a entender esse mundo e passar tais conhecimentos aos homens, a fim de que pudéssemos sobreviver e viver melhor neste mundo imperfeito. O sábio então descobriu uma forma de vencer a morte, convocou todos para uma grande festa, pediu que preparasse um tronco fincado no chão. É a ligação da Terra com o Ceú. Começaram por enfeitar o tronco, cantaram e dançaram a sua volta, lembrando os entes queridos que partiram. E o tronco começou a mudar. A noite, o Sábio alertou que ninguém saísse das ocas, nem espiasse o pátio da oca dos pajés. O tronco estava se transformando em humano, e dançando ao som da música e do canto do povo. Mas um não respeitou o pedido do sábio e o encanto se quebrou na hora. O tronco voltou a ser tronco e o sábio ficou furioso. Até hoje os povos cantam e dançam em busca de superar a morte, e trazer os entes queridos de volta, mas o Sábio já havia alertado que só havia uma chance. Os Guarani chamam esse ritual de Yvy Mba’e Meguá, uma forma de tentar se libertar da forma terrena imperfeita, alcançando o Aguyje (madurez acabada, estado de perfeição). Dos 3, o último dia do Kuarupe é vedado aos visitantes.

JM 16-8-19 – T.I. 18-8-19

Itapira de todos e do tempo

A noção do tempo histórico é fator essencial para o entendimento destes ensaios sobre a História de Itapira. Assim proponho o exercício reflexivo a partir de alguns parâmetros gerais sobre a humanidade no planeta Terra, sendo 1 (um) ano  o tempo que a Terra gasta para dar uma volta em torno do Sol.
Itapira está completando 199 anos (ano que vem, 2 séculos). Os portugueses chegaram ao Brasil há 519 anos (5 séculos atrás). No intervalo entre 1500 e 1820 a descoberta e saqueio do ouro e da prata paleoameríndias foi um dos principais motores do acúmulo de capital europeu, responsável pela desigualdade social vivida ainda hoje no mundo. A cristandade se iniciou há 2.019 anos (21 séculos). Povos como os Ava Guarani (umas das maiores nações que já existiu e ainda existe nas américas) tem mais de 4.000 ano (40 séculos) de História.
Estima-se que os paleoameríndios já construíam seus complexos em pedra, nas cordilheiras dos Andes há 3.800 anos (38 séculos). Esses povos, incluindo os viventes nas matas Amazônica e Atlântica, já dominavam a agricultura e plantavam abóbora, batata, milho e mandioca, entre muitos outros alimentos, há 7.000 anos (70 séculos). Luzia, o nome que demos para o crânio de uma mulher que encontramos em Minas Gerais, falecida com pouco mais de 20 anos de idade, viveu há 12.000 anos (120 séculos).
O espécime humano mais antigo já encontrado viveu há aproximadamente 3,2 milhões de anos na Etiópia.
Sabemos quase nada sobre o que aconteceu no mundo até o marco 0 do calendário gregoriano. Dos 3,2 milhões de anos em que o homem vaga pelo Mundo, temos registros seguros apenas dos últimos 2000 anos. Precisamos aceitar que, apesar dos avanços tecnológicos ocorridos especialmente nos últimos 30 anos, ainda é pouca informação. A sede de poder de alguns indivíduos acabam com Nações inteiras. É sobre isso que estamos falando a todo momento. Os povos europeus, sendo eu um descente direto, se acha demais. Se coloca numa posição de superioridade inexistente. Faz disso sua verdade e não se possibilita entender os demais movimentos, e declara guerra por qualquer coisa. Nós matamos pela glória de poucos, contribuindo com o desespero de muitos.
É preciso buscar entender e incorporar aspectos culturais de todas as esferas, quando estes se mostrar ser mais eficientes para uma melhor qualidade de vida de toda a sociedade.
Nossa falha está em desconsiderar a identidade histórica dos povos Tupi como parte de nossa personalidade individual, mesmo que longe da relação consanguínea. Assumir a cultura Tupi como parte da Brasilidade seria incorporar de formas mais efetivas e explícitas, padrões comportamentais que pode trazer mais conforto emocional e harmonia social a todos. Precisamos acertar nossa relação territorial.
Indícios arqueológicos sugerem que grande parte da mata Amazônica foram cultivadas pelos Tupi. Havendo intensa domesticação e seleção de vegetais e animais. Chamamos essas matas criadas pelo homem de mata antropogênicas. Estudiosos mais ousados dizem o mesmo sobre a mata Atlântica (não havendo mais mata nativa suficiente para garantir evidências confiáveis sobre essa relação). Ou seja, precisamos aceitar que de fato não somos invasores nestas terras. E há espaço para todos, é só organizar.
Todo o estudo sobre esses povos passam por muita observação e comparação. A diversidade cultural dos povos Tupi é gigante, variando o uso de adornos, formas de produzi-los e suas formas e cores, assim como o jeito de dançar e musicalizar. Porém a organização social e interação com a mata é muito semelhante numa parcela significativa, o que me da base para usar o termo Tupi para generalizar os nativos em suas diversas e distintas formas. Assim como gaúchos apresentam diferenças culturais dos baianos, não impedindo nenhum deles de se chamar brasileiro.
Resumindo e contextualizando:
Os povos europeus primitivos viviam em disputas tribais por territórios. Parte dos europeus encontram no mar um saída, assim nascem os mitos sobre Terra Brasilis, a terra sem males. Sem guerra, onde alimento verte como água do chão. O Paraíso na Terra. Quando encontram e descobre que além de alimentos no chão brota ouro e prata, toda a europa quis sua parte por direito divino ao paraíso.
Assim, cerca de 500 anos os povos nativos sofrem com o genocídio (direto e indireto), o que acarreta o fim de civilizações de mais 4.000 anos de História oral. As matas, para indígenas, representam sua alimentação, seu remédio, seu lazer, sua casa. As matas para europeus, representa especulação imobiliária. O progresso para os indígenas é conviver bem, se alimentar bem, honrar os espíritos das matas com festas, visitar familiares e amigos, se enfeitar, cantar, dançar e tomar banho de rio. O progresso para os europeus é saque, fogo, frio, fome, isolamento e exaustão.
Embora os primeiros contatos e conflitos entre Tupi e Europeus tenham ocorrido no Nordeste do Brasil, o primeiro povoado fundado pelos portugueses foi São Vicente, no Sudeste, em 1532, fundamental para a entrada no continente e especialmente como ponto de apoio aos navegantes que faziam a rota de Portugal às Índias por mar.
O porto de Santos passa a ser controlado pelo Portugueses em 1536. O povoado que se tornaria a capital São Paulo, encruzilhada de 5 grande estradas para todo o continente Sulamericano, entra no domínio português em 1554. Somente em 1820 europeus iniciam a construção da capela em honra a Nossa Senhora da Penha nas terras que chamamos Itapira.
Pensando em facilitar a relação com a cronologia nesta visão mais ampla da História de Itapira, ultrapassando os domínios europeus, entrando em domínios nativos, dividi a História de Itapira em 3 grandes eras:

1. 1500 anos atrás, o tempo dos nossos ancestrais: Tema que será apresentado de forma mais superficial, pela falta de registros históricos e evidências arqueológicas. Em geral o material utilizado para entender esse período é por meio dos registros dos padres jesuítas, assim como diários de viagens de mercadores e marinheiros. Também busco-se integrar as narrativas nativas, porém encontramos muito pouco conteúdo disponível.

2. de 1500 a 1800, o tempo dos nossos avós: Meu principal foco de estudos neste momento. Base para a série de ensaios do projeto histórico: Itapira 200. A base de pesquisa são documentos oficiais das cortes europeias, considerando a narrativa popular nativa e popular europeia. Para entender o interior, nossa região especialmente, a principal fonte de pesquisa são diários de viagens de estudantes, pesquisadores e exploradores que passaram em turismo por nossas terras no começo do Século XIX. Documentos oficiais do Império do Brasil são essenciais, assim como toda carga de referência bibliográfica básica para o período;

3. de 1800 a 1930, o tempo dos nossos pais: Entendo como a consolidação da identidade caipira e início da era moderna brasileira. Esse intervalo de tempo venho estudando desde sempre, é meu favorito. Porém nesta série de ensaios ela ficará em segundo plano. Pois já tempos em 1800 uma efetivação da hegemonia europeia no nosso continente. Marcando o fim dos modos de vida Tupi no Estado de São Paulo;

4. A partir de 1930, é futuro, o nosso tempo. O único momento que algo pode acontecer para enfim nos tornamos um povo forte e unido. O único momento em que podemos garantir um mundo melhor. A janela de possibilidades está se fechando, não podemos perder o bonde da História mais uma vez.

JM 9-8-19 T.I. 11-8-19